===== BLONDEL ===== BLONDEL (Maurice), [[lexico:f:filosofo|filósofo]] francês (Dijon 1861 — Aix-en-Provence 1949). Ensinou na [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de Aix a partir de 1895. Sua [[lexico:f:filosofia-da-acao|filosofia da ação]] é, na [[lexico:v:verdade|verdade]], uma [[lexico:r:religiao|religião]] da [[lexico:a:acao|ação]], que descobre na [[lexico:e:experiencia|experiência]] da [[lexico:v:vontade|vontade]] [[lexico:a:atuante|atuante]], um [[lexico:m:mundo|mundo]] "supra-fenomenal", o da [[lexico:f:fe|fé]] encarnada. Sua [[lexico:t:tese|tese]] de doutorado: A ação, ensaio de uma [[lexico:c:critica|crítica]] da [[lexico:v:vida|vida]] e de uma [[lexico:c:ciencia|ciência]] da prática (1893) inspira [[lexico:t:todo|todo]] o resto de sua [[lexico:o:obra|obra]], da [[lexico:i:ilusao|Ilusão]] idealista (1898) ao [[lexico:e:espirito|Espírito]] cristão e [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] (1939). Maurice Blondel, professor na Universidade de Aix-Marseille, publicou a sua primeira Ação em 1893, O [[lexico:p:pensamento|pensamento]] em 1934, O [[lexico:s:ser|ser]] e os seres em 1935, a Nova ação em 1936-37. Chocou-se, a [[lexico:p:principio|princípio]], com uma [[lexico:o:oposicao|oposição]] universitária e doutrinai. Censurava-se-lhe o catolicismo e os católicos, por sua vez, lhe verberavam o [[lexico:i:imanentismo|imanentismo]], isto é, acusavam-no de [[lexico:n:nao|não]] dar suficiente [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] a [[lexico:d:deus|Deus]], de confundi-lo demasiado com o mundo. De [[lexico:f:fato|fato]], a própria [[lexico:i:ideia-de-deus|ideia de Deus]] implica a sua transcendência absoluta, embora não deixe de ser também verdade que, para agir sobre o mundo, [[lexico:f:forca|força]] é que Deus tenha algum [[lexico:p:ponto|ponto]] de contato com ele. No fundo tratava-se apenas de precisar e tornar claras algumas fórmulas. Foi o que se fez, e o [[lexico:t:trabalho|trabalho]] foi realizado quer pelo [[lexico:p:proprio|próprio]] autor, quer pelos seus comentadores. A filosofia de Maurice Blondel, como a de [[lexico:b:bergson|Bergson]], é ainda e em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]] o repúdio de um pensamento excessivamente conceptual. O pensamento, afirma ele, não é uma [[lexico:o:operacao|operação]] [[lexico:l:logica|lógica]] mas sim uma operação vivida cuja [[lexico:r:raiz|raiz]] está no [[lexico:m:movimento|movimento]] interior que a desencadeia e de onde lhe advém todo o seu [[lexico:v:valor|valor]]. É também por isso que a ação se revela como o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da fé e nos revela o que somos. A ação — lemos no [[lexico:f:fim|fim]] da primeira Ação — "fundamenta a [[lexico:r:realidade|realidade]] de [[lexico:o:ordem|ordem]] [[lexico:i:ideal|ideal]] e [[lexico:m:moral|moral]]; ela contém a [[lexico:p:presenca|presença]] [[lexico:r:real|real]] daquilo que o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] pode apenas [[lexico:r:representar|representar]]". Quanto ao pensamento, se o acompanharmos em sua [[lexico:n:natureza|natureza]], sua [[lexico:g:genese|gênese]], seus resultados ou seu [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] não tardaremos a perceber — e percebe-se igualmente aonde isso nos leva — que ele se apresenta incompleto ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] que exige ser completado. Existe em primeiro lugar um pensamento "cósmico", e por esta [[lexico:e:expressao|expressão]] devemos entender que se o [[lexico:u:universo|universo]] pensa ou, pelo [[lexico:e:espetaculo|espetáculo]] que oferece, leva a [[lexico:p:pensar|pensar]], também configura um [[lexico:p:plano|plano]] pela sua marcha, pelas suas realizações sucessivas; há um pensamento "[[lexico:p:psiquico|psíquico]]" que desempenha o mesmo papel no [[lexico:i:individuo|indivíduo]] [[lexico:o:organico|orgânico]]; há um pensamento que se descobre e toma [[lexico:c:consciencia|consciência]] de si, um pensamento pensante e que pensa a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. Ora, é aqui que se manifesta o [[lexico:m:misterio|mistério]] em todo o seu alcance [[lexico:t:tragico|trágico]]. Que somos nós? Qual é o segredo desse movimento que nos faz [[lexico:a:apreender|apreender]] as [[lexico:c:coisas|coisas]], distinguir-nos delas, e nos impele a avançar por um [[lexico:c:caminho|caminho]] ao qual não podemos atribuir nenhuma meta, nenhuma [[lexico:f:finalidade|finalidade]] última? Deixamo-nos enganar um [[lexico:m:momento|momento]] por pesquisas insuficientes, senão ilusórias, separamos o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] do [[lexico:o:objeto|objeto]] e aplicamos todos os esforços a fixar-lhes a [[lexico:r:relacao|relação]] por [[lexico:m:meio|meio]] de fórmulas falazes. Não advertíamos que, embora lográssemos êxito, teríamos podido desmontar assim o "mecanismo" do pensamento, mas que a [[lexico:e:essencia|essência]], o fundo, a natureza do pensamento continuariam a ocultar-se como antes e que ele teria guardado o seu segredo. Ora, que é que revela um exame do pensamento, não já superficial e puramente [[lexico:d:descritivo|descritivo]], mas aprofundado até a [[lexico:s:substancia|substância]]? Que não há na [[lexico:m:materia|matéria]], no [[lexico:c:corpo|corpo]], nem nele próprio, [[lexico:n:nada|nada]] que o explique, que o justifique ou o defina em sua [[lexico:o:origem|origem]] e em seu fim. Está como que suspenso no [[lexico:a:ar|ar]] e no entanto sabemos que, débil como é, ele não seria capaz de sustentar-se [[lexico:p:por-si|por si]] e, portanto, deve receber de outra [[lexico:p:parte|parte]] aquilo que não pode dar a si mesmo. Não é o cérebro que o "segrega" e ele não tem anatomia, nem tampouco se engendra a si mesmo, como parece querer afirmar o [[lexico:i:idealismo-contemporaneo|idealismo contemporâneo]], derradeira [[lexico:f:forma|forma]] do [[lexico:n:nominalismo|nominalismo]] medieval. Será o sujeito, enfim, criador da sua natureza própria — [[lexico:r:relativo|relativo]] no seio de toda a [[lexico:r:relatividade|relatividade]] — ou não terá, pelo contrário a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de apegar-se a [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] da qual receba, com a vida, o princípio e já a realidade do pensamento? Prossigamos esta [[lexico:i:investigacao|investigação]] que avança com lentidão e [[lexico:p:prudencia|prudência]], sem querer aventurar-se, e parece evitar toda [[lexico:i:ideia|ideia]] preconcebida. Se o [[lexico:h:homem|homem]] não basta para [[lexico:e:explicar|explicar]] o todo do homem, já se deixa entrever aonde será preciso ir buscar a [[lexico:e:explicacao|explicação]]. Mas o pensamento apresenta, desta vez em si e na sua ação, outra dificuldade e outra [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]]. É raciocinador e [[lexico:d:discursivo|discursivo]]; deduz, procede por silogismos e, quer desenvolva, quer comprima o [[lexico:s:silogismo|silogismo]], podemos sempre reduzi-lo a ele. Tem, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, conhecimentos imediatos e instantâneos, evidências que se impõem, intuições que o iluminam de golpe e com tanta segurança como a mais rigorosa [[lexico:d:demonstracao|demonstração]]. A maneira por que se consegue definir, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], os casos de [[lexico:i:igualdade|igualdade]] de triângulos não é a mesma pela qual se concebem a própria [[lexico:f:figura|figura]] desses triângulos ou os axiomas donde partem as indagações que podemos efetuar a seu [[lexico:r:respeito|respeito]]. Existem, em [[lexico:s:suma|suma]], o espírito de fineza e o espírito de [[lexico:g:geometria|geometria]], sem nada a ligá-los, e, entre esses dois [[lexico:m:mundos|mundos]] do pensamento, uma "falha" que não permite passar de um ao outro. Mas, se nada se completa numa tal ordem, tudo nela exige ser completado; se há um [[lexico:p:problema|problema]] "da [[lexico:d:dualidade|dualidade]] persistente e da insanável inadequação entre o pensamento e o seu objeto ou no seio do próprio pensamento", não é suprimindo um dos termos ou o outro que o resolveremos. Encontraremos no objeto de litígio alguma [[lexico:c:coisa|coisa]] que possa ao menos lançar-nos no caminho das soluções? Se o nosso pensamento é tão fragmentário, inadequado, informe e incapaz de se bastar, não será porque existe acima dele, a condicioná-lo e a atraí-lo, um pensamento total, [[lexico:u:uno|uno]], [[lexico:p:perfeito|perfeito]], para o qual ele deve tender como para a sua [[lexico:f:fonte|fonte]] e o seu [[lexico:t:termo|termo]]? "Se é verdade", escreve Blondel, "que um [[lexico:d:determinismo|determinismo]] encadeia as fases da [[lexico:e:espontaneidade|espontaneidade]] intelectual... é mais verdade ainda... que a [[lexico:i:inteligibilidade|inteligibilidade]] da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] e a destinação do pensar implicam uma [[lexico:l:liberdade|liberdade]], uma [[lexico:r:responsabilidade|responsabilidade]], uma generosidade espiritual... que cumpre sejam levadas à [[lexico:p:perfeicao|perfeição]]... O conhecimento do nosso próprio pensamento e dos seus verdadeiros fins precede e domina implicitamente a consciência explícita dos objetos e dos fins parciais..." Que significa isto, senão que a nossa imperfeição é solicitada por uma perfeição soberana, que a nossa [[lexico:d:desordem|desordem]] será corrigida por uma ordem cujos lineamentos percebemos em nós, com a [[lexico:c:condicao|condição]] de que saibamos sair de nós mesmos, e que devemos aceitar "a todo custo", sem consideração de lugar, de tempo ou de meios, o auxílio que se nos oferece? É, pois, a Deus que encontramos no termo desta [[lexico:d:dialetica|dialética]] conduzida com tanta prudência e tanto vagar, um Deus que não foi [[lexico:n:necessario|necessário]] [[lexico:n:nomear|nomear]] mas que já se acha delineado com [[lexico:s:singular|singular]] [[lexico:p:precisao|precisão]]. Nem uma só vez no curso do seu livro confessou Maurice Blondel uma religião qualquer, e no entanto jamais esquecemos que ele é católico. Apesar disso, a sua doutrina nunca lançou mão do que devia à fé e a demonstração se desenrolou sem a intervenção de outros argumentos que não os da [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:r:razao|razão]]. Esta reserva não impediu Blondel de dar [[lexico:t:testemunho|testemunho]] da sua fé e de servi-la, se a exprimir, com todo o seu zelo e toda a sua penetração. A consideração do ser conduz a um resultado [[lexico:s:semelhante|semelhante]]. Assim como o pensamento implica um Pensamento, um pensamento do pensamento, também o [[lexico:e:estudo|estudo]] do ser e dos seres, da [[lexico:n:nocao|noção]] e da realidade do ser, estabelece a [[lexico:e:existencia|existência]] de um Ser [[lexico:a:absoluto|absoluto]] e primeiro do qual deriva todo ser e em que se concentra essencialmente o ser. E já podemos notar nesse trabalho um passo inicial muito significativo. Não apreendemos [[lexico:e:esse|esse]] ser exteriormente, por uma simples operação lógica; descobrimo-lo ao nos descobrir nele e ao descobri-lo em nós, isto é, mais uma vez pela ação e, se assim podemos expressar-nos, vivendo-o. Aliás, acrescenta o filósofo, cumpre evitar um duplo [[lexico:e:erro|erro]] que consiste em "imaginar... quer que tenhamos sido primitivamente colocados pela [[lexico:r:reflexao|reflexão]] fora do ser para nele penetrar em seguida por um golpe de força ou de habilidade do pensamento, quer que nos seja [[lexico:p:possivel|possível]] fazer desvanecer-se como uma ilusão ingênua a nossa [[lexico:c:certeza|certeza]] espontânea do ser...". É exatamente neste ponto que peca uma dialética ou uma sofistica de nossos dias, a de [[lexico:s:sartre|Sartre]], que pretende mostrar a inanidade do ser ou tirar o ser do nada. Acontece, porém, que Blondel já tentara com antecedência uma [[lexico:r:refutacao|refutação]], da qual tornaremos ainda a [[lexico:f:falar|falar]]. Em O Ser e os seres passa ele da noção e da realidade acessível do ser à [[lexico:e:estrutura|estrutura]] dos seres e, tendo concluído pela existência do ser absoluto, examina o que podemos [[lexico:s:saber|saber]] e exprimir a seu respeito. "O que açode ao espírito quando o estudamos ou procuramos exprimir-lhe a razão última é que nós possuímos efetivamente o ser e, com ele, a necessidade de ser, e em [[lexico:t:terceiro|terceiro]] lugar a necessidade de conhecer, de conhecer para ser, visto que o conhecer é o descobrimento do ser. E por este ser, enfim, é mister entender sempre não uma [[lexico:a:abstracao|abstração]], mas uma substância concreta." Este [[lexico:c:concreto|concreto]] a que retornamos era já uma exigência bergsoniana. Aqui ela se consubstancia ainda mais, parece-nos mais precisa e assenta sobre bases mais sólidas. É que Blondel não cogita de introduzir uma novidade radical, e por isso não repudia a contribuição do passado. Revivifica esse pensamento conceptual que permanece, no fundo, a forma inevitável do pensamento, do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que opõe ao [[lexico:f:fenomenismo|fenomenismo]] — sob a forma fenomenológica, como adiante veremos — uma [[lexico:o:ontologia|ontologia]] que restabelece a essência, vendo nela não apenas uma necessidade lógica mas um princípio animador. Retendo, pois, o que existe de constante na filosofia, isto é, a sua própria forma, esta filosofia torna a mergulhá-la na vida, prende-a ao [[lexico:a:abstrato|abstrato]], e mereceria assim esse [[lexico:n:nome|nome]] demasiado em voga de [[lexico:e:existencialismo|existencialismo]], se entendermos a [[lexico:p:palavra|palavra]] no [[lexico:s:sentido|sentido]] de filosofia vivida que acabou por assumir. Mas vamos [[lexico:v:ver|ver]] que ela é também o contrário do existencialismo.