===== BEM ===== gr. [[lexico:a:agathon:start|agathon]] em [[lexico:p:platao:start|Platão]], em [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] e em [[lexico:p:plotino:start|Plotino]], agathon 1-3; identificado com o primeiro [[lexico:p:principio:start|princípio]] não-hipotetizado, [[lexico:d:dialektike:start|dialektike]] 2, [[lexico:e:epistrophe:start|epistrophe]]; o antecipado, [[lexico:e:epithymia:start|epithymia]]; o bem para o [[lexico:h:homem:start|homem]], [[lexico:e:ergon:start|ergon]] 5; [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de [[lexico:a:amor:start|amor]] em Plotino, [[lexico:e:eros:start|Eros]] 10; [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] como o bem para o homem, endaimonia; e [[lexico:p:prazer:start|prazer]], [[lexico:h:hedone:start|hedone]], passim; identificado com o [[lexico:u:uno:start|uno]], [[lexico:h:hen:start|hen]] 1; o bem percebido conduz ao [[lexico:m:movimento:start|movimento]], [[lexico:k:kinesis:start|kinesis]] 8, [[lexico:k:kinoun:start|kinoun]] 9; definido analogamente através de todas as [[lexico:c:categorias:start|categorias]], on 3; o Bem e o Uno, hen 3, 8-9; identificado com [[lexico:l:limite:start|limite]], [[lexico:p:peras:start|peras]]; corno objeto da [[lexico:e:etica:start|ética]] e da [[lexico:p:politica:start|política]], [[lexico:p:praxis:start|praxis]]; como [[lexico:c:causa:start|causa]] final, [[lexico:t:telos:start|telos]] 3 (gr. agathon; lat. Bonum; in. Good; fr. Bien; al. Gut; it. Bené). Em [[lexico:g:geral:start|geral]], tudo o que possui [[lexico:v:valor:start|valor]], preço, [[lexico:d:dignidade:start|dignidade]], a qualquer título. Na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], Bem é a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] tradicional para indicar o que, na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]], se chama valor. Um Bem é um livro, um cavalo, um alimento, qualquer [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que se possa vender ou comprar; um Bem também é [[lexico:b:beleza:start|beleza]], dignidade ou [[lexico:v:virtude:start|virtude]] humana, bem como uma [[lexico:a:acao:start|ação]] virtuosa, um [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] aprovável. Em [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]] com essa extrema variedade de significados, o [[lexico:a:adjetivo:start|adjetivo]] [[lexico:b:bom:start|Bom]] tem uma idêntica variedade de aplicações. Podemos [[lexico:f:falar:start|falar]] de "uma boa chave de fenda" ou de "um bom automóvel" como também de "uma boa ação" ou de "uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] boa". Dizemos também "um bom prato", para indicar algo que corresponde ao nosso paladar, ou "um bom quadro", para indicar um quadro bem-feito. Dessa [[lexico:e:esfera:start|esfera]] do [[lexico:s:significado:start|significado]] geral, pela qual a palavra se refere a tudo o que tem um valor qualquer, pode-se recortar a esfera do significado específico, em que a palavra se refere particularmente ao domínio da [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]], isto é, dos mores, da [[lexico:c:conduta:start|conduta]], dos comportamentos humanos intersubjetivos, designando, assim, o valor específico de tais comportamentos. Nesse segundo significado, isto é, como Bem [[lexico:m:moral:start|moral]], o Bem é objeto da ética e o registro dos seus diferentes significados históricos é encontrado no verbete ética. Por ora, deveremos tratar da [[lexico:n:nocao:start|noção]] de Bem só no primeiro [[lexico:s:sentido:start|sentido]], isto é, na sua acepção mais geral. Podemos, então, distinguir dois pontos de vista fundamentais, que apresentam intersecção na [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]]: 1) a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], segundo a qual o Bem é a [[lexico:r:realidade:start|realidade]], mais precisamente a realidade perfeita ou suprema, e é desejado como tal; 2) a teoria subjetivista, segundo a qual o Bem é [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] desejado ou o que agrada, e é tal só n [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]]. 1) O [[lexico:m:modelo:start|modelo]] de todas as teorias metafísicas é a teoria de Platão, segundo a qual o Bem é o que confere verdade aos objetos cognoscíveis, que confere ao homem o poder de conhecê-los, que confere [[lexico:l:luz:start|luz]] e beleza às [[lexico:c:coisas:start|coisas]], etc.; em uma palavra, é [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:s:ser:start|ser]], no homem e fora do homem (Rep., VI, 508 e 509 b). Platão compara o Bem ao [[lexico:s:sol:start|sol]], que dá aos objetos [[lexico:n:nao:start|não]] só a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de serem vistos como também a de serem gerados, de crescerem e de nutrir-se; e, assim como o Sol que, mesmo sendo a causa dessas coisas, não é nenhuma delas, também o Bem como fonte da verdade, do [[lexico:b:belo:start|belo]], da cognoscibilidade, etc. e, em geral, do ser, não é nenhuma dessas coisas e está [[lexico:a:alem:start|além]] delas (ibid., 509 b). Analogamente, Plotino vê no Bem a primeira [[lexico:h:hipostase:start|Hipóstase]], isto é, a [[lexico:o:origem:start|origem]] da realidade, o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:d:deus:start|Deus]], considerando-o como causa, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], do ser, da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] (Enn., VI, 7, 16) e, em geral, de tudo o que é ou vale um título qualquer (ibid., V, 4, 1). Essas noções tornaram-se correntes na [[lexico:f:filosofia-medieval:start|filosofia medieval]], que identificou, segundo o [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] neopla-tônico, o Bem com Deus mesmo, de [[lexico:m:modo:start|modo]] que só pode ser considerado "bom" o que é, de algum modo, [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] a Deus ([[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]]. S. Th., I. q. 6, a. 4). O [[lexico:t:teorema:start|teorema]] [[lexico:c:caracteristico:start|característico]] dessa concepção de Bem é o que afirma a [[lexico:i:identidade:start|identidade]] do que é Bem com o que existe. "Bonum e [[lexico:e:ens:start|ens]] são a mesma coisa na realidade", diz Tomás de Aquino, "embora possam distinguir-se um do [[lexico:o:outro:start|outro]] racionalmente. O Bem, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], é o [[lexico:e:ente:start|ente]] como objeto de [[lexico:d:desejo:start|desejo]], o que não é o ente" (S. Th., 1, q. 5, a. 1). Por isso, "todo ente, como ente, é bom" (ibid., I, q. 5, a. 3). De [[lexico:f:fato:start|fato]], todo ente como tal está em [[lexico:a:ato:start|ato]] e enquanto está em ato é [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]]: mas o que é perfeito é também apetecível e é bom. Esse teorema revela a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] da concepção metafísica do Bem, cujo princípio é que o Bem é apetecível só como realidade perfeita ou [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] [[lexico:r:real:start|real]]. Pode-se, por isso, reconhecer uma teoria metafísica do Bem precisamente por essa [[lexico:c:caracteristica:start|característica]], que subordina a apetecibilidade à realidade e, por [[lexico:f:fim:start|fim]], considera o próprio Bem como a realidade suprema. Assim faz [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], p. ex., quando afirma que "a realidade efetiva coincide em si com o Bem" (Philosophische Propädeutik, III, § 83), ou que o Bem é "a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] realizada, o [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] final [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] do [[lexico:m:mundo:start|mundo]]" (Fil. do dir., § 129). Todas as formas de [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] e de [[lexico:e:espiritualismo:start|espiritualismo]] constituem outras tantas doutrinas metafísicas do Bem, já que todas identificam o Bem com a realidade e, em última [[lexico:i:instancia:start|instância]], com a realidade suprema; é o que fazem, p. ex., Rosmini, que identifica ser e bem (Principi dela scienza morale, ed. nac, p. 78), e Gentile, que identifica o Bem com o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] em ato: "O Bem ou valor moral outra coisa não é senão a realidade espiritual em sua [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]], como produção de si mesma ou liberdade" (.[[lexico:l:logica:start|Lógica]], 1, p. 110). Algumas filosofias contemporâneas que preferem falar de valor em vez de Bem, considerando o valor como uma realidade absoluta e última, inscrevem-se na mesma concepção tradicional de bem. 2) Por outro lado, a teoria subjetivista do Bem é o inverso simétrico da teoria metafísica. Para ela, o Bem não é desejado por ser perfeição e realidade, mas é perfeição e realidade por ser desejado. Ser desejado ou apetecido é o que define o Bem Foi assim que Aristóteles o definiu várias vezes (Et. Nic., I, 1, 1.094 a 3). Todavia, nesse autor, a doutrina não deixa de [[lexico:t:ter:start|ter]] conexões ou misturas com a doutrina oposta. Quando precisa determinar os critérios de preferência entre os vários [[lexico:b:bens:start|bens]], recorre à noção metafísica de perfeição, isto é, à noção que fundamenta a teoria oposta de Bem Assim, p. ex., ele diz que o que é Bem em absoluto é mais desejável do que aquilo que é um Bem para alguém, como p. ex. curar-se é preferível a sofrer uma [[lexico:o:operacao:start|operação]] cirúrgica; que o que é um Bem por natureza (p. ex., a [[lexico:j:justica:start|justiça]]) é preferível ao que é um Bem por aquisição (p. ex., o homem justo). Além disso, "mais desejável é o que pertence a um objeto melhor e mais digno, de tal modo que o que pertence à divindade é preferível ao que pertence ao homem, e o que tange à [[lexico:a:alma:start|alma]] é preferível ao que tange ao [[lexico:c:corpo:start|corpo]]" (Top., III, 1, 116 b 17). Assim, Aristóteles delineia um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de preferências que parece orientar-se para o [[lexico:c:carater:start|caráter]] de perfeição que os bens possuem objetivamente e que, portanto, [[lexico:m:mal:start|mal]] se concilia com a [[lexico:d:definicao:start|definição]] do Bem como objeto de desejo. Essa definição é validada pela primeira vez, em todo o seu rigor, pelos estoicos. Estes consideraram o Bem exclusivamente como objeto de [[lexico:e:escolha:start|escolha]] obrigatória ou preferencial; portanto, foram também os primeiros a introduzir na ética a noção de valor. "Assim como é próprio do calor aquecer, e não esfriar, também é próprio do Bem ajudar, e não prejudicar", diziam eles (Dióg. L., VII, 103). Bem, em sentido absoluto, é somente o que se conforma à [[lexico:r:razao:start|razão]], que tem, por isso, um valor em si; mas são também Bem, embora de modo subordinado ou [[lexico:m:mediato:start|mediato]], as coisas que fazem apelo à escolha e enquanto tais têm valor, como o [[lexico:t:talento:start|talento]], a [[lexico:a:arte:start|arte]], a [[lexico:v:vida:start|vida]], a saúde, a [[lexico:f:forca:start|força]], a beleza, etc. (ibid., 104-5; cf. Cícero, De finibus, III, 6, 20). Essa [[lexico:t:tabua:start|tábua]] de valores prescindia completamente da perfeição objetiva a que se referiam as tábuas de valores da concepção clássica grega. Obliterada durante toda a Idade Média, a concepção subjetivista de Bem volta, no [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]], com as alusões à ética do [[lexico:m:mobil:start|móbil]], que se repetem nesse período (v. Ética), mas foi afirmada na sua [[lexico:f:forma:start|forma]] mais nítida por [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]]. "O homem chama de bom o objeto de seu [[lexico:a:apetite:start|apetite]] ou de seu desejo, de mau o objeto de seu ódio ou de sua aversão, de vilo objeto de seu desprezo. As [[lexico:p:palavras:start|palavras]] ‘bom’, ‘mau’, ‘vil’ são sempre entendidas em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a [[lexico:q:quem:start|quem]] as emprega, porque [[lexico:n:nada:start|nada]] há de absoluto e simplesmente tal, e não há nenhuma [[lexico:n:norma:start|norma]] comum para o Bem e para o mal que derive da natureza das coisas" (Leviath., I, 6). [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]] aceitou com [[lexico:e:entusiasmo:start|entusiasmo]] esse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista. "Nós não nos propomos, não queremos, não desejamos, não ansiâmos por uma coisa porque a julguemos boa, mas, ao contrário, julgamo-la boa pelo fato de a propormos, querermos, desejarmos e ansiarmos" (Et., III, 9, escól.). E, no prefácio ao IV Livro, reitera: "O Bem e o mal não indicam nada [[lexico:p:positivo:start|positivo]] que esteja nas coisas consideradas em si, mas são nada mais do que modos de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] ou noções que formamos, ao confrontar as coisas. Realmente, uma mesma coisa pode ser, ao mesmo tempo, boa, má e até indiferente". Por sua vez, [[lexico:l:locke:start|Locke]] afirmou que "chamamos de Bem o que é capaz de produzir prazer em nós e de mal o que é capaz de produzir [[lexico:s:sofrimento:start|sofrimento]]" (Ensaio, II, 21, 43); definições que encontram concordância em [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]]: "O Bem divide-se em honesto, agradável e [[lexico:u:util:start|útil]], mas, no fundo, creio que deve ser agradável por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] ou servir a algo que nos dê [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] de prazer: o Bem é agradável ou útil e mesmo a honestidade consiste em um prazer do espírito" (Nouv. ess., II, 20, 2). [[lexico:k:kant:start|Kant]] aceitou essas observações, acrescentando-lhes um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] importante, isto é, a exigência de uma [[lexico:r:referencia:start|referência]] conceituai. "O Bem" diz ele, "é o que, por intermédio da razão, agrada pelo seu [[lexico:c:conceito:start|conceito]] [[lexico:p:puro:start|puro]]. Dizemos que [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] é boa para (útil) quando ela agrada só como um [[lexico:m:meio:start|meio]]; aquela que, ao contrário, agrada [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesma, dizemos que é boa em si. Em ambas, estão sempre contidos o conceito de [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] e a relação entre razão e [[lexico:v:vontade:start|vontade]] (pelo menos [[lexico:p:possivel:start|possível]]); consequentemente, o prazer está ligado à [[lexico:e:existencia:start|existência]] de um objeto ou de uma ação, vale dizer, a um [[lexico:i:interesse:start|interesse]]" (Crít. do [[lexico:j:juizo:start|juízo]], § 4). A [[lexico:p:presenca:start|presença]] do conceito, isto é, do fim a que a coisa tende ou da norma a que deve adequar-se, é o que distingue o bom do agradável. Kant [[lexico:n:nota:start|nota]] que um alimento agradável, para ser considerado "bom", deve agradar também à razão, isto é, deve ser considerado bom em relação ao objetivo da nutrição, da saúde [[lexico:f:fisica:start|física]]. Todavia, o agradável e o bom estão ligados pelo fato de dependerem ambos do interesse pelo seu objeto; além disso, "o que é B absolutamente sob todos os aspectos, o Bem moral, inclui o mais alto interesse, pois o Bem é o objeto da vontade, isto é, de uma [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] de desejar determinada pela razão. Mas querer alguma coisa e ter prazer por sua existência, isto é, sentir interesse por ela, são a mesma coisa" (ibid., fim). Nesse sentido, o Bem é aquilo que se aprecia, que se aprova e a que se atribui "um valor objetivo" (ibid., § 5). Assim, no seio da própria teoria subjetivista, Kant valida a exigência objetivista que constituía a força da teoria metafísica. O Bem, para Kant, só é Bem em relação ao homem, isto é, em face do interesse que o homem tem por sua existência. Mas isso não o torna exclusivamente [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]], isto é, não o identifica pura e simplesmente com o prazer porque ao [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do Bem está vinculada a valorização conceituai de sua [[lexico:e:eficiencia:start|eficiência]] em relação a certos fins e é isto que constitui o Bem como "um valor objetivo". Depois de Kant, a noção de valor tende a suplantar a de Bem nas discussões morais, e pode ser considerada como sucessora do conceito subjetivo de Bem, dotada que é de suas mesmas conexões sistemáticas. Em seu [[lexico:l:lugar:start|lugar]], porém, renascerá, com forma pouco alterada, a [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]] entre uma concepção objetivista e uma concepção subjetivista: alternativa que ainda hoje constitui um dos temas fundamentais da [[lexico:d:discussao:start|discussão]] moral (v. valor). É aquilo que pode aperfeiçoar um ser e que, por isso, pode ser objeto de [[lexico:a:apeticao:start|apetição]] para este. Distinguem-se o bem [[lexico:c:concreto:start|concreto]], isto é, o existente, e a [[lexico:b:bondade:start|bondade]] ou o valor como [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] interno do bem. Atendendo-se às características intrínsecas, dividem-se os valores ou bens em puramente materiais, biológicos (p. e.v., a saúde), psíquicos (p. ex., o prazer), espirituais (intelectuais, estéticos, morais) (bens). Como [[lexico:b:bem-supremo:start|bem supremo]] [[lexico:f:figura:start|figura]] na moderna [[lexico:f:filosofia-dos-valores:start|filosofia dos valores]], o [[lexico:s:santo:start|santo]] ([[lexico:s:santidade:start|santidade]]). Com essa [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] não se confunda a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] [[lexico:f:formal:start|formal]] em valor por si (auto-valor) e valor útil (bonum utile). Este [[lexico:u:ultimo:start|último]], como valor orientado para alguma coisa distinta, só conduz a um outro bem, como, p. ex., o remédio para a saúde. O valor por si em sentido amplo é ou autovalor propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]] — valor de perfeição (bonum honestam, bonum per se), — ou valor deleitável, de prazer ou satisfação (o agradável, bonum delectabile), ou seja, o valor de [[lexico:r:reacao:start|reação]], o qual se acha naturalmente ligado à obtenção do autovalor propriamente dito e, por isso, lhe é subordinado (p. ex., o prazer de ter alcançado a verdade ou a [[lexico:t:tranquilidade:start|tranquilidade]] da boa [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]). O honesto, portanto, nesta divisão, não deve ser equiparado ao moralmente bom, podendo ser também um bem [[lexico:f:fisico:start|físico]] (bonum physicum), como o vigor corporal. Quase sempre, porém, entende-se por "honesto" o conteúdo axiológico do bem moral (bonum morale) (v. moralidade), que é também [[lexico:c:chamado:start|chamado]] "bem" simplesmente. Ele aperfeiçoa a [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] humana em seu âmago e em seu todo, ao contrário, p. ex., do valor puramente intelectual ou do puramente estético, os quais aperfeiçoam em primeiro lugar determinadas capacidades da pessoa, só se tornando moralmente importantes quando se integram na [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] da pessoa. A bondade moral exige a ação do homem e uma ação livre (liberdade), pela qual o homem se orienta para valores e fins objetivos. Portanto, o ato propriamente moral é um ato da vontade livre, não apenas no sentido de um desejo de fazer, mas também e sobretudo no sentido do amor [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]]. Por serem esses atos essencialmente dirigidos a um objeto ([[lexico:i:intencional:start|intencional]]), existe a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre o ato moralmente bom (bonum morale subiectivum) e o objeto moralmente bom (bonum morale obiectivum), distinção ignorada pela [[lexico:e:etica-dos-valores:start|ética dos valores]]. O objeto moral é, tratando-se do querer-agir, a ação que se deseja praticar (p. ex., dizer a verdade) e, tratando-se do amor pessoal, o valor da pessoa. Por ser o homem, como ente espiritual (espírito), ordenado para a realidade ou bem absoluto, ultrapassando toda a esfera do finitos só pode encontrar sua plena perfeição pela [[lexico:s:subordinacao:start|subordinação]] de toda a sua vida a esse fim absoluto. Por isso, o objeto que determina, em última instância, o caráter moral do comportamento [[lexico:h:humano:start|humano]] é o bem absoluto. Este, quando claramente concebido, é o Deus pessoal, ao qual o homem se volta pelo amor. Mas é possível também uma vaga [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] de um valor absoluto, na qual permaneça mais ou menos [[lexico:o:oculto:start|oculto]] seu caráter pessoal. A pessoa humana, enquanto [[lexico:i:imagem-de-deus:start|imagem de Deus]] (homem), participa da dignidade do bem absoluto. Daí decorrem outros valores morais, corno a justiça e a [[lexico:v:veracidade:start|veracidade]] (virtude). — De Vries. (Advérbio do adjetivo bom, e substantivo) a) O que possui valor sob qualquer aspecto: o que é objeto de satisfação ou de aprovação em qualquer [[lexico:o:ordem:start|ordem]] de finalidade; o que é perfeito em seu [[lexico:g:genero:start|gênero]], bem sucedido, favorável, útil: é o [[lexico:t:termo:start|termo]] laudativo [[lexico:u:universal:start|universal]] dos juízos de apreciação; aplica-se ao voluntário e ao involuntário. b) Bem, no sentido de moralmente bom, como tal é um dos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] normativos fundamentais, ao lado dos valores do [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] e do belo. É um ato que, em um caso determinado, considera-se como o moralmente preferível. Com [[lexico:r:respeito:start|respeito]] aos atos realizados, é aquele que encontra aprovação; com respeito aos atos futuros, é aquele que deve ser realizado. Mas o Bem difere do [[lexico:d:dever:start|dever]]: 1) enquanto não implica nenhuma [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de [[lexico:o:obrigacao:start|obrigação]] ou de [[lexico:o:obediencia:start|obediência]] a uma [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]], mas somente de norma e de perfeição ([[lexico:c:como-se:start|como se]] fosse considerado como unia [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] inerente a um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]], o que de fato é segundo alguns filósofos, sendo negado por outros), e 2) enquanto o Bem concerne ao próprio ato que deve ser realizado e não à [[lexico:i:intencao:start|intenção]]. Kant, para colocar os valores morais em uma [[lexico:p:posicao:start|posição]] de plena independência, com respeito a todos os outros valores, negou que o bem e o mal fossem valores materiais e reduziu esses [[lexico:p:principios:start|princípios]] à conformidade ou não-conformidade a um preceito [[lexico:i:imperativo:start|imperativo]], como um «[[lexico:d:dever-ser:start|dever-ser]]» [[lexico:n:normativo:start|normativo]]. Como o bem pode se manifestar em atos diferentes, conforme as circunstâncias de um caso determinado, Kant chega à [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de que o [[lexico:u:unico:start|único]] bem incondicional é uma vontade boa. Essa concepção do bem foi recentemente muito combatida pelos representantes de um [[lexico:n:neo-realismo:start|neo-realismo]], especialmente por [[lexico:s:scheler:start|Scheler]], que defende que o bem e o mal são qualidades irredutíveis, que se oferecem imediatamente à [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] [[lexico:e:emocional:start|emocional]]» que, segundo ele, é o [[lexico:o:orgao:start|órgão]] [[lexico:a:adequado:start|adequado]] para a apreensão dos valores. Dentro das atitudes possíveis acerca do [[lexico:p:problema:start|problema]] do bem (considerar o Bem como um “termo” ou como uma “noção”), referimo-nos ao Bem como algo real. Convém precisar imediatamente o [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de realidade a que se adscreve. É mister, portanto, perceber se se entende o bem como um ente ou como um ser; como uma [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] de um ente - ou de um ser - ou como um valor. Mas depois de ter esclarecido este ponto, é, todavia, conveniente [[lexico:s:saber:start|saber]] de que realidade se trata. Enfrentaram-se duas opiniões diferentes a respeito disto: Primeira: o bem é uma realidade metafísica; segunda: o bem é algo moral. Antes de analisar cada uma destas opiniões, é preciso distinguir o bem em si mesmo do bem relativamente a outra coisa. Esta distinção aparece já em Aristóteles, que assinala que o primeiro é preferível ao segundo, mas tendo em conta que o bem em si mesmo nem sempre equivale ao Bem absoluto; designa um Bem mais [[lexico:i:independente:start|independente]] que o bem [[lexico:r:relativo:start|relativo]]. Por exemplo, diz que recobrar a saúde é melhor que sofrer uma amputação, pois o primeiro é bom absolutamente, e o segundo só o é para o que precisa de ser amputado. Esta distinção foi adoptada por muitos escolásticos. Uma [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] desta distinção foi a [[lexico:n:negacao:start|negação]] de que o bem é exclusivamente uma [[lexico:s:substancia:start|substância]] ou realidade absoluta. Aristóteles e muitos escolásticos rejeitavam, por conseguinte, a doutrina platônica - e por vezes plotiniana - do Bem como ideia absoluta ou como ideia das [[lexico:i:ideias:start|ideias]], tão elevada e magnífica que, em rigor, está, como disse Platão, “para além do ser” de tal modo que as coisas boas o são enquanto unicamente participações do único Bem absoluto. Com efeito, na concepção aristotélica, pode dizer-se que o bem de cada coisa não é - ou não é só - a sua [[lexico:p:participacao:start|participação]] no Bem absoluto e separado, mas que cada coisa pode ter o seu bem, isto é, a sua perfeição. 1) o bem em si mesmo equipara-se frequentemente ao bem metafísico. Nesse caso, costuma dizer-se que o bem e o ser são uma e a mesma coisa, de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com a célebre [[lexico:f:formula:start|fórmula]] de Santo [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]]: “o que é, é bom” (Confissões), que foi aceite pela maioria dos filósofos medievais. Interpretada de um modo radical, esta equiparação dá como resultado a negação de [[lexico:e:entidade:start|entidade]] ao mal, mas para evitar as dificuldades que isso levanta definiu-se amiúde o mal como afastamento do ser, e, por conseguinte, do bem. O Bem surge então como uma luz que ilumina todas as coisas, em sentido restrito, o Bem é Deus, definido como [[lexico:s:sumo-bem:start|sumo bem]]. Mas em sentido menos restrito, participam do bem as coisas criadas e em [[lexico:p:particular:start|particular]] o homem, especialmente quando alcança o [[lexico:e:estado:start|Estado]] da [[lexico:f:fruicao:start|fruição]] de Deus. A elaboração filosófica desta concepção define o Bem como um dos [[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]]. 2) A concepção do bem como Bem metafísico não exclui a sua concepção como bem moral; pelo contrário, inclui-a, mesmo quando o Bem metafísico parece gozar sempre de certa preeminência, especialmente na [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] clássica. O mesmo se pode dizer da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] kantiana, por mais que nesta fique invertida a citada preeminência. Com efeito, se só a [[lexico:b:boa-vontade:start|boa vontade]] se pode chamar algo bom sem [[lexico:r:restricao:start|restrição]], o Bem moral aparece como o [[lexico:s:sumo:start|sumo]], o Bem. O fato de as grandes afirmações de Kant serem postulados da [[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]] explica a peculiar relação existente entre o bem metafísico e o bem moral dentro do seu sistema. Quando se põe o bem moral acima das outras espécies de bens, levantam-se vários problemas. eis aqui dois que consideramos capitais: Em primeiro lugar, trata-se de saber se o bem é algo subjectivo ou algo que existe objetivamente. Muitas filosofias admitem as duas possibilidades. Assim Aristóteles e grande [[lexico:n:numero:start|número]] de escolásticos definem o Bem como algo que é apetecível e, nesse sentido, parecem tender para o [[lexico:s:subjetivismo:start|subjetivismo]]; mas, na realidade, “aquilo a que todas as coisas apetecem”, como diz S. Tomás ([[lexico:s:suma-teologica:start|Suma Teológica]]) É o Bem porque constitui o termo da [[lexico:a:aspiracao:start|aspiração]]. Isto permite solucionar o conflito levantado por Aristóteles (no [[lexico:c:comeco:start|começo]] da [[lexico:e:etica-a-nicomaco:start|Ética a Nicômaco]]) quando se [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] se se deve considerar o Bem como uma ideia de certa coisa separada que surge e subsiste por si isoladamente, ou então como algo que se encontra em tudo o que existe e se pode chamar o [[lexico:b:bem-comum:start|bem comum]] ou real. Em contrapartida, autores como Espinosa consideram o bem como algo de subjectivo, não só por ter insistido na ideia de que o bom de cada coisa é a conservação e a persistência no seu ser, mas também por ter [[lexico:e:escrito:start|escrito]] expressamente (Ética) que “nos movemos, queremos, apetecemos ou desejamos algo, porque julgamos que é bom, mas que julgamos que é bom porque nos movemos para isso, o queremos, apetecemos e desejamos”. Muitas das chamadas morais subjectivas, quer antigas quer modernas, podiam tomar como [[lexico:l:lema:start|lema]] a citada [[lexico:f:frase:start|frase]] de Espinosa. Em segundo lugar, trata-se de saber quais são as entidades que se consideram boas. As chamadas morais materiais consideram que o bem só pode [[lexico:e:estar:start|estar]] incorporado em realidades concretas. Assim acontece quando se diz que o bom é o deleitável, ou o conveniente ou o honesto, ou o correto, etc. Note-se que os escolásticos não rejeitaram esta [[lexico:c:condicao:start|condição]] do bem, pois consideravam que o bom se divide em diversas regiões determinadas pela razão de apetecibilidade d e modo que se pode dizer, com efeito, do bom, que é útil, ou que é honesto, ou que é agradável, etc. Mas enquanto, entre os escolásticos, isto era o resultado de uma divisão do bem, entre os partidários mais estritos das morais materiais o bem reduz-se a uma ou mais dessas espécies de bens. As ditas morais formais (especialmente a de Kant) insistem, em contrapartida, em que a [[lexico:r:reducao:start|redução]] do bem a um Bem ou a um tipo de bens (em particular de bens concretos) converte a moral em algo relativo e dependente. Há, segundo ele, tantas morais materiais quantos os gêneros de bem, mas, em contrapartida, há só uma moral formal. Contra isso argumentam as morais materiais que a moral puramente formal é vazia e não pode formular nenhuma [[lexico:l:lei:start|lei]] que não seja uma [[lexico:t:tautologia:start|tautologia]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}