===== ARREPENDIMENTO ===== (lat. paenitentia; in. Repentance; fr. Repentir; al. Reue; it. Pentimentó). O angustiante [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] da própria [[lexico:c:culpa:start|culpa]]. Esta é a [[lexico:d:definicao:start|definição]] em que os filósofos concordam, ainda que a expressem com [[lexico:p:palavras:start|palavras]] diferentes ([[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]], S. Th., III, q. 85, a. 1; [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], Pass. de l’âme, III, 191; [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]], Et., III; Definição das paixões, 27; [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], Werke, ed. Glockner, X, p. 372, etc). Os filósofos também estão de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] em admitir o [[lexico:v:valor:start|valor]] [[lexico:m:moral:start|moral]] do arrependimento. Spinoza, embora julgue que o A. "[[lexico:n:nao:start|não]] é uma [[lexico:v:virtude:start|virtude]], isto é, não deriva da [[lexico:r:razao:start|razão]]" e que, portanto, [[lexico:q:quem:start|quem]] se arrepende é duplamente miserando e impotente (uma vez porque agiu [[lexico:m:mal:start|mal]] e depois porque se aflige com isso), reconhece que aquele que está submetido ao A. pode, todavia, voltar a [[lexico:v:viver:start|viver]] segundo a razão muito mais facilmente do que os outros (Et., IV, 54). Montaigne, que dedicou ao A. um de seus [[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]] mais notáveis (Essais, III, 2), observara, porém, que o A. não deve transformar-se no [[lexico:d:desejo:start|desejo]] "de [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:o:outro:start|outro]]". "Não cabe propriamente A. pelas [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que não estão em nosso poder, assim como não cabem as saudades. Imagino infinitas naturezas mais elevadas e mais ponderadas do que a minha; mas com isso não melhoro as minhas [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]], assim como o meu braço e o meu [[lexico:e:espirito:start|espírito]] não ficam mais vigorosos só porque [[lexico:e:eu:start|eu]] os conceba diferentemente do que são" (ibid., ed. Rat., III, p. 28). Em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:a:analogo:start|análogo]] exprime-se [[lexico:k:kierkegaard:start|Kierkegaard]], que viu no A. o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] culminante da [[lexico:v:vida:start|vida]] [[lexico:e:etica:start|ética]] e, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], o [[lexico:s:sinal:start|sinal]] do seu conflito interno. O a. é inerente à [[lexico:e:escolha:start|escolha]] que, na vida ética, o [[lexico:h:homem:start|homem]] faz de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]. "Escolher a si mesmo é [[lexico:i:identico:start|idêntico]] a arrepender-se de si mesmo... Até o [[lexico:m:mistico:start|místico]] se arrepende, mas fora de si e não dentro de si; arrepende-se metafisicamente e não eticamente. Arrepender-se esteticamente é repugnante, porque é [[lexico:a:afetacao:start|afetação]]; arrepender-se metafisicamente é [[lexico:c:coisa:start|coisa]] inútil e fora de [[lexico:l:lugar:start|lugar]], pois não foi o [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] que criou o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] e não lhe cabe incomodar-se tanto com a vaidade do mundo" (Entweder-Oder, em Werke, II, p. 223; Furcht und Zittem, em Werke, III, p. 143). Cf. M. [[lexico:s:scheler:start|Scheler]], Reue und Wiedergeburt, em Vom Ewigen im Menschen, A- ed., 1954). ARREPENDIMENTO nunca se origina de a [[lexico:v:vontade:start|vontade]] [[lexico:t:ter:start|ter]] mudado (algo impossível), mas de o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] ter mudado. O [[lexico:e:essencial:start|essencial]] e [[lexico:p:proprio:start|próprio]] daquilo que eu sempre quis, tenho de ainda continuar a querê-lo, pois eu mesmo sou esta Vontade a residir fora do tempo e da [[lexico:m:mudanca:start|mudança]]. Portanto, nunca posso me arrepender do que quis, mas sim do que fiz, visto que, conduzido por falsas noções, agi de maneira diferente daquela adequada à minha vontade. O ARREPENDIMENTO é a [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]] disso por via de um conhecimento mais preciso. E isto se estende não só à [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] de vida, à escolha dos meios, ao [[lexico:j:julgamento:start|julgamento]] do mais [[lexico:a:adequado:start|adequado]] [[lexico:f:fim:start|fim]] à minha vontade, mas também ao ético propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]]. Assim, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], posso ter agido mais egoisticamente do que era adequado ao meu [[lexico:c:carater:start|caráter]], visto que fui guiado por representações exageradas da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] na qual eu mesmo me encontrava, ou pela astúcia, [[lexico:f:falsidade:start|falsidade]], [[lexico:m:maldade:start|maldade]] dos outros, ou posso ter sido precipitado: numa [[lexico:p:palavra:start|palavra]], agi sem [[lexico:p:ponderacao:start|ponderação]], determinado não por [[lexico:m:motivos:start|motivos]] distintamente conhecidos in abstracto, mas por [[lexico:s:simples:start|simples]] motivos intuitivos, pela [[lexico:i:impressao:start|impressão]] do presente e o [[lexico:a:afeto:start|afeto]] que este provocou, o qual foi tão violento que me privou do [[lexico:u:uso:start|uso]] propriamente dito da razão. Mas aqui, portanto, o [[lexico:r:retorno:start|retorno]] da [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] deliberativa não passa de conhecimento corrigido, do qual pode resultar arrependimento, que sempre dá sinal de si mesmo por reparação, até onde é [[lexico:p:possivel:start|possível]], do acontecido. No entanto, deve-se notar que, para enganar a si mesmas, as pessoas fingem precipitações aparentes, que em [[lexico:r:realidade:start|realidade]] são [[lexico:a:acoes:start|ações]] secretamente ponderadas. Porém mediante tais truques sutis não enganamos nem adulamos ninguém, senão a nós mesmos. – Também o caso contrário ao mencionado pode ocorrer. Posso ser ludibriado pela confiança excessiva nos outros, ou pelo desconhecimento do valor [[lexico:r:relativo:start|relativo]] dos [[lexico:b:bens:start|bens]] da vida, ou por algum [[lexico:d:dogma:start|dogma]] [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] cuja [[lexico:c:crenca:start|crença]] doravante perdi, e assim ser levado a agir menos egoisticamente do que é adequado ao meu caráter, com isso preparando um arrependimento de outro [[lexico:g:genero:start|gênero]]. Portanto, o arrependimento sempre é o conhecimento corrigido da proporção do [[lexico:a:ato:start|ato]] com a [[lexico:i:intencao:start|intenção]] [[lexico:r:real:start|real]]. – E assim como a Vontade que manifesta suas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] apenas no [[lexico:e:espaco:start|espaço]], ou seja, mediante a simples [[lexico:f:figura:start|figura]], já encontra a resistência de outras Ideias, aqui forças naturais, que dominam a [[lexico:m:materia:start|matéria]] e desse [[lexico:m:modo:start|modo]] raramente permitem a irrupção perfeitamente pura e distinta, isto é, bela, da figura que se esforça por visibilidade; assim também a Vontade que se manifesta apenas no tempo, isto é, via ações, encontra uma resistência análoga no conhecimento, que quase nunca lhe fornece os dados inteiramente corretos, fazendo o ato não corresponder de maneira precisa e integral à Vontade, preparando dessa [[lexico:f:forma:start|forma]] o arrependimento. Logo, o arrependimento sempre resulta do conhecimento corrigido, não da mudança da Vontade, [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] [[lexico:i:impossivel:start|impossível]]. O [[lexico:p:peso:start|peso]] de [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a atos já cometidos não é arrependimento, mas [[lexico:d:dor:start|dor]] sobre o conhecimento de nosso si mesmo, ou seja, como Vontade, Baseia-se na [[lexico:c:certeza:start|certeza]] de que sempre temos a mesma vontade. Se esta tivesse mudado e assim o peso de consciência fosse mero arrependimento, ela se superaria a si; pois o passado não poderia despertar dor alguma, visto que expunha a [[lexico:e:exteriorizacao:start|exteriorização]] de uma vontade que [[lexico:a:agora:start|agora]] já não é mais a do arrependido. Adiante discutiremos em detalhes a [[lexico:s:significacao:start|significação]] desse peso de consciência. [SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Primeiro Tomo. Tr. Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005, p. 383-384] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}