===== ARBITRARIEDADE DO SIGNO ===== O Cours de Linguistique Genérale estabelece como primeiro [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:g:geral|geral]] da [[lexico:t:teoria|teoria]] dos signos a sua arbitrariedade. "O elo que une o significante ao [[lexico:s:significado|significado]] é [[lexico:a:arbitrario|arbitrário]], ou antes, pois que entendemos por [[lexico:s:signo|signo]] o total resultante da [[lexico:a:associacao|associação]] de um significante e um significado, podemos dizer mais simplesmente: o signo linguístico é arbitrário". Pela [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] se entende que o significante é motivado em [[lexico:r:relacao|relação]] ao significado. Isto é o mesmo que afirmar inexistir uma relação intrínseca e necessária entre as duas partes constitutivas do signo linguístico, que obrigasse a cunhagem desta e [[lexico:n:nao|não]] doutra associação qualquer. A relação entre significante e significado é portanto convencional, variável como toda [[lexico:n:norma|norma]] de [[lexico:c:cultura|cultura]]. Fosse doutro [[lexico:m:modo|modo]] não se explicaria a divergência que caracteriza o léxico das línguas. Ademais, é porque arbitrário que [[lexico:s:saussure|Saussure]] preferiu designar a [[lexico:u:unidade|unidade]] do léxico pelo [[lexico:n:nome|nome]] de signo, em vez de [[lexico:s:simbolo|símbolo]], pois neste "existe um rudimento de elo [[lexico:n:natural|natural]] entre o significante e o significado". O autor considera a seguir os casos que poderiam ferir o princípio [[lexico:e:enunciado|enunciado]]. Dentre estes destaca-se a [[lexico:f:figura|figura]] da onomatopeia. Saussure não a considera, entretanto, capaz de abalar sua formulação. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], porque nem todas as onomatopeias o são naturalmente — isto é, assim aparecem apenas para os usuários do [[lexico:s:sistema|sistema]] verbal em que assim são tomados. Stephen Ullmann, nesta linha acentuou mais recentemente que "mesmo quando há uma autêntica [[lexico:s:semelhanca|semelhança]] de percepções, há também diferenças marcadas, devido ao [[lexico:f:fato|fato]] de que a [[lexico:i:imitacao|imitação]] é apenas parcial e que cada [[lexico:l:lingua|língua]] a convencionou da sua maneira própria". Em segundo lugar, acrescenta Saussure, porque o que resta das onomatopeias "autênticas" — [[lexico:t:tipo|tipo]] tique-taque, glu-glu — é uma escala insignificante. Na [[lexico:v:verdade|verdade]], o [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] de Saussure é impecável dentro de suas pressuposições. Sua conclusão, contudo, mostrar-se-á falha se os pressupostos com que trabalha se revelarem insuficientes. Consideremo-los, portanto: o linguista genebrino considera o [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:m:motivacao|motivação]]/imotivação [[lexico:l:linguistica|linguística]] a partir da seguinte [[lexico:a:alternativa|alternativa]]: a) ou existe uma relação necessária entre a [[lexico:p:palavra|palavra]], e a [[lexico:c:coisa|coisa]] que representa ou b) tal relação é arbitrária e convencional. Ora, como mostraria E. Benveniste (1939) a alternativa empregada é contraditória à [[lexico:i:ideia|ideia]] central de Saussure da língua como sistema, que há de [[lexico:s:ser|ser]] visto em sua [[lexico:r:realidade|realidade]] própria, afastados os [[lexico:e:elementos|elementos]] externos que haviam impedido a linguística de descobrir o seu [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:o:objeto|objeto]]. De [[lexico:a:acordo|acordo]] com esta ideia, a [[lexico:n:natureza|natureza]] do signo deveria ser pesquisada dentro do sistema em que foi produzido. Paradoxalmente, porém, Saussure "esquece" o sistema e define o signo por sua relação com [[lexico:o:o-que-e|o que é]] [[lexico:e:externo|externo]] à [[lexico:l:linguagem|linguagem]]. ". . . É apenas se se pensa no [[lexico:a:animal|animal]] ‘boeuf em sua particularidade concreta e ‘[[lexico:s:substancial|substancial]]’ que é justo julgar ‘arbitrária’ a relação entre böf de um lado, oks do [[lexico:o:outro|outro]], quanto a uma mesma realidade...". As pressuposições saussurianas são assim retificadas substituindo-se a comparação entre palavra e coisa pela [[lexico:a:analise|análise]] do signo em seu sistema. O que vale dizer, as [[lexico:i:ideias|ideias]] de motivação/imotivação passam a ser definidas em termos de cultura e não em termos de [[lexico:c:correspondencia|correspondência]] entre um [[lexico:e:elemento|elemento]] de [[lexico:o:ordem|ordem]] cultural — o signo — e outro de ordem natural — a coisa representada. Por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], arborescente, arborecer, arborescência sa revelam internamente motivados a partir de seu [[lexico:t:termo|termo]] gerador, ‘árvore’. Este é ¡motivado, mas de sua imotivação nasce uma cadeia motivada. Daí [[lexico:l:levi-strauss|Lévi-Strauss]] haver sintetizado a colocação pós-saussuriana por sua conhecida [[lexico:f:frase|frase]]: "O signo linguístico é arbitrário [[lexico:a:a-priori|a priori]] mas deixa de sê-lo [[lexico:a:a-posteriori|a posteriori]]". (Luiz Carlos Lima - [[lexico:d:dcc|DCC]])