===== ANGÚSTIA E NADA ===== Mas nesta carreira da [[lexico:v:vida|vida]], quando a vida corre atrás de si mesma; nesta ocupação que é [[lexico:p:preocupacao|preocupação]]; neste presente que é um [[lexico:f:futuro|futuro]] que chegou a [[lexico:s:ser|ser]]; em tudo isto se manifesta a vida essencialmente como não-indiferença; e a não-indiferença se manifesta na [[lexico:a:angustia|angústia]]. A angústia é o [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:t:tipico|típico]] e [[lexico:p:proprio|próprio]] da vida. A vida é angustiosa. E por que é angustiosa a vida? A angústia da vida tem duas facetas. De um lado, é [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de [[lexico:v:viver|viver]]; a angústia da vida é afã de viver; é não-indiferença ao ser, que antes descrevia [[lexico:e:eu|eu]] nos seus dois aspectos de [[lexico:e:existir|existir]] e de existir deste ou daquele [[lexico:m:modo|modo]]; nos seus dois aspectos [[lexico:e:existencial|existencial]] e [[lexico:e:essencial|essencial]]. De modo que, de um lado, a angústia é afã de ser, anseio de ser, de continuar sendo, para que o futuro seja presente; mas, de [[lexico:o:outro|outro]] lado, [[lexico:e:esse|esse]] anseio de ser leva dentro o temor de [[lexico:n:nao|não]] ser, o temor de deixar de ser, o temor do [[lexico:n:nada|nada]]. Por isso a vida é, de um lado, anseio de ser, e de outro lado, temor do nada. Essa é a angústia. A angústia contém na sua [[lexico:u:unidade|unidade]] [[lexico:e:emocional|emocional]], [[lexico:s:sentimental|sentimental]], essas duas notas ontológicas características; de um lado, a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] do anseio de ser, e de outro lado, a radical temerosidade diante do nada. O nada amedronta ao [[lexico:h:homem|homem]]; e então a angústia de poder não ser o atenaza, e sobre ela se levanta a preocupação, e sobre a preocupação a [[lexico:a:acao|ação]] para ser, para continuar sendo, para existir. Justamente o viver e ocupar-se o homem com as [[lexico:c:coisas|coisas]], [[lexico:p:parte|parte]] de que ele, no fundo de sua [[lexico:a:alma|alma]] se diz a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]: isto é algo; [[lexico:o:o-que-e|o que é]] isto? e se lança em busca do ser. Quando tropeça com alguma dificuldade, quando encontra os limites de sua ação, quando vê que sua ação não pode chegar a um término completo, antes há [[lexico:o:obstaculo|obstáculo]], contra ela, então o homem sente a angústia e vê diante de si o espectro do nada; e reage contra essa angústia e contra esse espectro do nada supondo que as coisas são e procurando-lhes o ser pelos meios científicos que tiver à sua mão: com o [[lexico:p:pensamento|pensamento]], com os aparelhos do laboratório etc. etc. Dentro da necessária brevidade desta lição, temos já um vislumbre de um dos problemas mais importantes que apresenta a [[lexico:o:ontologia-da-vida|ontologia da vida]]. O mais importante de todos é o de procurar e encontrar, não somente uma [[lexico:t:terminologia|terminologia]] adequada — que se procura por todas as partes — mas também, e sobretudo, [[lexico:c:conceitos|conceitos]] lógicos adequados para apresar essa [[lexico:r:realidade|realidade]] [[lexico:v:vivente|vivente]], essa realidade vital que está, para um pensamento de certo [[lexico:e:estilo|estilo]] [[lexico:l:logico|lógico]], semeada de contradições, as quais na realidade são contradições que desapareceriam se tivéssemos instrumentos finos, suficientemente delicados para poder manejar esses conceitos aparentemente contraditórios dentro de uma [[lexico:l:logica|lógica]] [[lexico:d:dinamica|dinâmica]] do mudar e do "não-ser-já", juntamente com o ser. Esta é a primeira [[lexico:t:tarefa|tarefa]], à qual é preciso atender o quanto antes.