===== ANAMORFOSE ===== A [[lexico:p:palavra|palavra]] “anamorfose” significa uma inversão, uma [[lexico:c:conversao|conversão]] da [[lexico:f:forma|forma]], um revirar a forma. Originária do século 17, constituía-se numa [[lexico:o:operacao|operação]] realizada dentro de regras estritas. Visava a [[lexico:s:ser|ser]] uma [[lexico:t:transformacao|transformação]] “anárquica regrada”. Seu procedimento de deformação inverte [[lexico:e:elementos|elementos]], formas, figuras e perspectivas. A anamorfose projeta as formas para fora de si mesmas de tal [[lexico:m:modo|modo]] que elas retornam quando se descobre a nova [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]]. A anamorfose alia perversão e criatividade e manifesta, assim, a [[lexico:d:doenca|doença]] da [[lexico:i:idealidade|idealidade]]. Tudo se torna uma [[lexico:q:questao|questão]] de perspectiva. Primeiro, parece que a anamorfose apenas quer chamar a [[lexico:a:atencao|atenção]] para a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de se poder, através da perspectiva da perspectiva, [[lexico:r:representar|representar]], [[lexico:n:nao|não]] apenas cada [[lexico:c:coisa|coisa]] em seu ser-assim de modo [[lexico:i:imediato|imediato]], mas de se poder representá-la uma segunda vez, quando se escolhe um segundo ângulo, que garante um tão novo e inesperado olhar sobre as [[lexico:c:coisas|coisas]], que parecem quase irreconhecíveis, num primeiro [[lexico:m:momento|momento]], porque manifestadas num distanciamento. Cada [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] pode, assim, ser experimentado de modo duplo: de modo “[[lexico:n:natural|natural]]” e de modo “anti-natural”.(6) O [[lexico:p:principio|princípio]] da anamorfose, no século 17, não apenas residia no descobrimento das possibilidades de uma dupla perspectiva. Sua particularidade era assinalada pela torção e distorção provocativa e chocante da [[lexico:o:ordem|ordem]] tradicional. No [[lexico:u:universo|universo]] da [[lexico:a:arte|arte]], a concepção clássica idealista tinha a [[lexico:e:esperanca|esperança]] de poder alcançar ao menos um [[lexico:r:reflexo|reflexo]] da verdadeira, enquanto o [[lexico:m:maneirismo|maneirismo]] radicalizava de tal maneira o [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida na concepção da arte até levá-lo ao [[lexico:a:absurdo|absurdo]] com o princípio da anamorfose. Um quadro anamorfótico não quer ser apenas a [[lexico:a:aparencia|aparência]] da [[lexico:e:essencia|essência]], mas quer ser, no mesmo [[lexico:a:ato|ato]], o aparecimento da aparência·, o primeiro se procura com o princípio [[lexico:f:formal|formal]] da perspectiva e o [[lexico:u:ultimo|último]], com o princípio formal da anamorfose.(7) Os maneiristas afirmam que deve haver, no mínimo, duas perspectivas ou mais. Os anamorfóticos procuram produzir isso: eles apresentam a perspectiva da perspectiva como o [[lexico:e:elemento|elemento]] primeiro e oferecem, com isso, a construção da construção como o imediato para o olhar supreendido do espectador. A [[lexico:i:imagem|imagem]] familiar, assim, rompia-se e, [[lexico:d:dado|dado]] que o olho não mais sabia o que via, esta [[lexico:s:situacao|situação]] desencadeava, no espectador, choque e fascinação. Por [[lexico:m:meio|meio]] do novo empenho construtivista os adeptos da anamorfose queriam ir ao encontro da dissolução do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:c:classico|clássico]]. Desde o princípio a anamorfose aparece como a [[lexico:a:antecipacao|antecipação]], na pintura, do surgimento do cogito-, com a [[lexico:v:verdade|verdade]] da [[lexico:c:consciencia|consciência]], surge, no mesmo ato, o perigo do engano (da [[lexico:i:ilusao|ilusão]]). Esta coincidência e aproximação do conteúdo é documentada, para [[lexico:a:alem|além]] do contexto [[lexico:t:teorico|teórico]], em conexões temporais, espaciais, históricas, e mesmo biográficas: o [[lexico:e:eu|eu]] cartesiano refletia-se na pintura já desde o [[lexico:r:renascimento|Renascimento]], na [[lexico:b:beleza|beleza]] dos retratos e autorretratos. Assim, a anamorfose aliava-se, desde o [[lexico:c:comeco|começo]], com uma [[lexico:c:critica|crítica]] ao [[lexico:c:cogito|cogito]] e sabotava, já naquela [[lexico:e:epoca|época]], sua bela aparência na superfície. A anamorfose apareceu como uma continuação [[lexico:m:metodica|metódica]] do autorretrato de Parmigianino, que, no começo do concettismo, pela primeira vez representava-se deformado num espelho convexo. Já então começou o [[lexico:j:jogo|jogo]] escondido com a perspectiva; o refinamento de uma perspectivação da perspectiva produziu absurdidades óticas e, subitamente, com um choque, rompeu a imagem cartesiana do mundo. (8)