===== ANALITICIDADE ===== Segundo a [[lexico:i:ideia|ideia]] (ou o [[lexico:p:principio|princípio]]) de analiticidade, [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:c:complexo|complexo]] deve [[lexico:s:ser|ser]] reduzido a [[lexico:e:elementos|elementos]] mais [[lexico:s:simples|simples]]; e essa [[lexico:r:reducao|redução]] deve ser levada o mais longe [[lexico:p:possivel|possível]]. O simples passa a ser considerado como a chave do complexo e [[lexico:n:nao|não]] o contrário. A ideia subjacente é a de que só compreenderemos uma [[lexico:r:realidade|realidade]] complexa quando soubermos de que efeitos ela é constituída e como esses elementos constituintes são agenciados, uns com [[lexico:r:relacao|relação]] aos outros, de [[lexico:m:modo|modo]] a produzirem os efeitos de conjunto que podemos efetivamente observar. [Ladrière] (in. Analyticity; fr. Analyticité; al. Analytizität; it. Analiticita). [[lexico:v:validade|validade]] das proposições, que não depende dos fatos. [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:c:conceito|conceito]] é [[lexico:m:moderno|moderno]] e nasce com a [[lexico:d:distincao|distinção]] estabelecida por [[lexico:h:hume|Hume]], entre [[lexico:r:relacoes|relações]] de [[lexico:i:ideias-e-coisas|ideias e coisas]] de [[lexico:f:fato|fato]], e com a distinção estabelecida por [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], entre [[lexico:v:verdades-de-razao|verdades de razão]] e [[lexico:v:verdades-de-fato|verdades de fato]] (v. [[lexico:e:experiencia|Experiência]]; Fato). Foram estabelecidos os seguintes fundamentos da analiticidade: 1) Certa [[lexico:o:operacao|operação]] do [[lexico:e:espirito|espírito]]. É o que faz Hume, ao afirmar que as proposições concernentes às [[lexico:i:ideias|ideias]] "podem ser descobertas com uma simples operação do [[lexico:p:pensamento|pensamento]]" (Inq. Conc. Underst, IV, 1). A [[lexico:c:caracteristica|característica]] desta operação é não depender dos fatos, mas trata-se de uma característica negativa que pouco diz sobre o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da analiticidade. 2) Certa relação de [[lexico:i:implicacao|implicação]] entre [[lexico:s:sujeito|sujeito]] e [[lexico:p:predicado|predicado]]. É o que faz [[lexico:k:kant|Kant]], ao definir o [[lexico:j:juizo|juízo]] [[lexico:a:analitico|analítico]] como o juízo em que "o predicado B pertence ao sujeito A como algo que está contido (implicitamente) nesse conceito A" (Crít. R. Pura, intr., IV). Sobre o [[lexico:c:carater|caráter]] dessa implicação, porém, [[lexico:n:nada|nada]] se diz; e o famoso [[lexico:e:exemplo|exemplo]], aduzido por Kant, da [[lexico:p:proposicao|proposição]] "os corpos são extensos", que seria [[lexico:a:analitica|analítica]] em face da proposição "os corpos são pesados", que seria sintética, não esclarece por certo esse conceito, já que não se vê por que a [[lexico:e:extensao|extensão]] deve [[lexico:e:estar|estar]] contida implicitamente no conceito de [[lexico:c:corpo|corpo]], e não o [[lexico:p:peso|peso]]. 3) A [[lexico:t:tautologia|tautologia]]. Nesse [[lexico:s:sentido|sentido]], [[lexico:w:wittgenstein|Wittgenstein]] considerou as proposições analíticas como tautologias. "A tautologia", disse ele, "não tem condições de [[lexico:v:verdade|verdade]] porque é incondicionalmente verdadeira" (Tractatus, 4.461). Mas, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, ela não é uma "[[lexico:r:representacao|representação]] da realidade" porque "permite todas as situações possíveis" Çibid, 4.462). Essa [[lexico:d:definicao|definição]] tem grande difusão na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] contemporânea. Carnap exprimiu-a dizendo que "um [[lexico:e:enunciado|enunciado]] é [[lexico:c:chamado|chamado]] analítico quando é uma [[lexico:c:consequencia|consequência]] da [[lexico:c:classe|classe]] nula de enunciados (e, assim, uma consequência de cada enunciado)" (Logische Syntax der Sprache, § 14). Isso significa que um enunciado é analítico quando a sua [[lexico:n:negacao|negação]] é contraditória: caráter aceito por outros autores para definir a analiticidade e que faz das verdades analíticas "verdades necessárias" ([[lexico:r:reichenbach|Reichenbach]], The Theory of Probability, 1949, § 4, p. 20; Lewis, Analysis of Knowledge and Valuation, 1950, p. 89, etc). A verdade analítica da tautologia deriva do fato de que ela exaure o nível das possibilidades e, portanto, é evidente pela simples [[lexico:f:forma|forma]] do enunciado. Carnap exprimiu esse caráter com o conceito de "[[lexico:d:descricao|descrição]] de [[lexico:e:estado|Estado]]" (State-description), pelo qual se entende "a descrição completa de um possível estado do [[lexico:u:universo|universo]] dos indivíduos relativamente a todas as propriedades e relações expressas pelos [[lexico:p:predicados|predicados]] do [[lexico:s:sistema|sistema]]" (Meaning and Necessity, § 2). A descrição de estado representa os "[[lexico:m:mundos|mundos]] possíveis" de Leibniz: um enunciado é analítico quando é válido para todos os mundos possíveis. Os lógicos, todavia, tendem hoje a fazer a distinção entre [[lexico:v:verdade-logica|verdade lógica]] e verdade analítica. P. ex., a proposição "nenhum [[lexico:h:homem|homem]] não casado é casado" é uma tautologia e, portanto, uma verdade [[lexico:l:logica|lógica]]; mas a proposição "nenhum solteiro é casado" não é mais uma tautologia, mas ainda é uma proposição analítica, fundada na [[lexico:s:sinonimia|sinonímia]] entre "solteiro" e "não casado". (Cf. Quine, From a Logical Point of View, 1953, cap. II). 4) A sinonímia. Esta pode ser estabelecida: a) mediante definições, [[lexico:c:como-se|como se]] costuma fazer na [[lexico:m:matematica|matemática]] e em todas as linguagens artificiais; b) mediante o [[lexico:c:criterio|critério]] da intercambiabilidade, com que Leibniz define a própria [[lexico:i:identidade|identidade]]; nesse caso, chamam-se [[lexico:s:sinonimos|sinônimos]] os termos intercambiáveis num mesmo contexto, sem que se altere a verdade do [[lexico:p:proprio|próprio]] contexto; c) mediante regras semânticas, como também ocorre nas linguagens artificiais. É de se notar que a dificuldade de se estabelecer, com esses procedimentos, o [[lexico:s:significado|significado]] [[lexico:e:exato|exato]] de sinonímia e, portanto, o de analiticidade levou alguns lógicos modernos a negar a [[lexico:e:existencia|existência]] de distinção nítida entre analiticidade e [[lexico:s:sinteticidade|sinteticidade]] (Morton White, The Analytic and the Synthetic an Untenable Dualism, em Sidney Hook, ed. John [[lexico:d:dewey|Dewey]], Nova York, 1950; W. V. O. Quine, From a Logical Point of View, Cambridge, 1953, cap. II).