===== ANALÍTICA DO OBJETO ===== Dentro do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] ocidental teorias do [[lexico:o:objeto|objeto]] começam a [[lexico:s:ser|ser]] desenvolvidas a partir de [[lexico:k:kant|Kant]], e já em [[lexico:h:hegel|Hegel]] dispomos de uma rica [[lexico:m:metafisica|metafísica]] exploratória do [[lexico:p:problema|problema]]. A [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]] de Kant aprofunda a [[lexico:q:questao|questão]] das condições que tornam [[lexico:p:possivel|possível]] a [[lexico:i:intuicao|intuição]] do que, genericamente, é nela [[lexico:c:chamado|chamado]] de "objeto" de nossa [[lexico:c:consciencia|consciência]]. Em Hegel a [[lexico:o:objetividade|objetividade]] se torna uma [[lexico:c:categoria|categoria]] (dialeticamente) relacionada à [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] (o que será largamente explorado por [[lexico:k:kierkegaard|Kierkegaard]]). Mas, no [[lexico:s:sentido|sentido]] em que usamos o [[lexico:t:termo|termo]] hoje em dia. a primeira [[lexico:t:teoria|teoria]] dó objeto é formulada por [[lexico:m:marx|Marx]]. Desde 1844 Marx procura [[lexico:c:compreender|compreender]] o [[lexico:p:processo|processo]] pelo qual objetificamos, isto é, opomos a nós, algo que em nós teve [[lexico:o:origem|origem]]. Na passagem clássica, "o objeto que o [[lexico:t:trabalho|trabalho]] produz, seu [[lexico:p:produto|produto]], se lhe é apresentado como um ser estranho, como uma [[lexico:f:forca|força]] [[lexico:i:independente|independente]] contraposta a [[lexico:q:quem|quem]] o produziu. O produto do trabalho é o trabalho que se fixou num objeto, se coisificou; é uma [[lexico:o:objetificacao|objetificação]] do trabalho. A realização do trabalho é sua objetificação. Esta realização se revela, na situações econômicas, como sendo uma desrealização do trabalhador, e a objetificação se mostra como sendo uma [[lexico:p:perda|perda]] e [[lexico:s:servidao|servidão]] ante ao objeto, e a apropriação como [[lexico:a:alienacao|alienação]]". Nesta passagem dos textos de 1844, Marx sugere uma [[lexico:n:nocao|noção]] nova de objeto: algo cu;a [[lexico:p:posicao|posição]] [[lexico:e:essencial|essencial]] é [[lexico:e:exterior|exterior]] a nós, e que dessa [[lexico:e:exterioridade|exterioridade]] nos domina. Mas que teve sua origem em nós, que foi por nós produzido. Muito mais [[lexico:t:tarde|Tarde]], numa famosa passagem do primeiro tomo de [[lexico:o:o-capital|O Capital]], Marx analisa o [[lexico:f:fetiche|fetiche]] da [[lexico:m:mercadoria|mercadoria]]. Resumindo suas considerações, Marx nos mostra como a "[[lexico:c:coisa|coisa]]" existe em dois níveis. O primeiro nível é o nível de sua [[lexico:u:utilidade|utilidade]], de como a coisa existe para cada um de nós. No segundo nível, a coisa se transforma em mercadoria (ou seja, em objeto). "O [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:m:mistico|místico]] da mercadoria [[lexico:n:nao|não]] se origina em seu [[lexico:v:valor|valor]] de [[lexico:u:uso|uso]]. Muito pelo contrário, tal caráter [[lexico:t:ter|ter]] origem na própria maneira de se determinar o valor". Esta [[lexico:d:determinacao|determinação]] do valor é "externa" a nós, e é dada "socialmente". "O valor transforma cada produto do trabalho num hieróglifo [[lexico:s:social|social]]". O corte realizado por Marx entre valor de uso e valor de troca é extremamente elucidador. O primeiro resulta de uma [[lexico:o:ontologia|ontologia]] da coisa no quotidiano: a coisa só tem "sentido" para nós se "soubermos o que fazer com ela". Mas o sentido da mercadoria, ou seja, daquilo que tem valor de troca, não mais é [[lexico:d:dado|dado]] por sua [[lexico:r:referencia|referência]] a nós, e sim por sua referência a algo [[lexico:e:externo|externo]] a nós, a algum [[lexico:s:sistema|sistema]] de valores e [[lexico:i:ideias|ideias]] — a algum sistema ideológico . Toda a [[lexico:c:critica|crítica]] [[lexico:e:economica|econômica]] de Marx pode ser vista como o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] de uma [[lexico:t:teoria-do-objeto|teoria do objeto]] como mercadoria. A elucidação do valor de troca pela teoria do valor-trabalho é uma tentativa de se mostrar a origem (esquecida) em nós daquilo que valoriza e objetifica a mercadoria. No entanto, processos análogos ao descrito por Marx — onde o trabalhador (nós) produz algo que será cortado, afastado dele (de nós), e se tornará numa força coerciva sobre ele (sobre nós) — vão ser encontrados no [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] das neuroses, e terão sua elucidação através da [[lexico:p:psicanalise|psicanálise]]. C. G. [[lexico:j:jung|Jung]], num ensaio de 1934, descreve um processo notavelmente [[lexico:p:proximo|próximo]] daquele descrito em [[lexico:o:outro|outro]] nível por Marx: "Todos os esforços da [[lexico:h:humanidade|humanidade]] se dirigem no sentido da fortificação do [[lexico:c:consciente|consciente]]. A este [[lexico:f:fim|fim]] se prestam os ritos, as "representações coletivas", os dogmas; seriam como que diques e muralhas erguidos contra os perigos do [[lexico:i:inconsciente|Inconsciente]], os "perils of the soul". Jung identifica a origem dos dogmas, ritos e "representações (ou [[lexico:s:simbolos|símbolos]]) da coletividade": fundam-se todos nos processos dinâmicos e constitutivos do inconsciente que ele denominou de arquétipos. Para Jung, um [[lexico:a:arquetipo|arquétipo]] não é uma "[[lexico:i:imagem|imagem]]" ou um "[[lexico:s:simbolo|símbolo]]"; é um processo, uma [[lexico:t:tendencia|tendência]] que orienta a [[lexico:p:psique|psique]] (e o [[lexico:o:organismo|organismo]]) dentro de certas situações existenciais. A [[lexico:f:finalidade|finalidade]] dos arquétipos é a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] de um outro processo [[lexico:b:bem|Bem]] mais [[lexico:p:profundo|profundo]], que é o arquétipo de nossa [[lexico:i:individualidade|individualidade]], o arquétipo do [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. Quando este [[lexico:c:caminho|caminho]] "[[lexico:n:natural|natural]]" do organismo se vê bloqueado ou dificultado, surgem as neuroses, ou seja, as objetificações dos arquétipos, no que Jung chamou de "diques e muralhas" com as quais o consciente se protege do inconsciente. Ou seja, com as quais o consciente corta suas raízes no inconsciente e se submete ao domínio da exterioridade, da objetividade Uma [[lexico:a:analise|análise]] bastante mais rigorosa que a de Jung se encontra no psiquiatra inglês Ronald Fairbairn. Fairbairn desenvolve (baseado em Melanie Klein) uma teoria das neuroses como um relacionamento a "objetos" "bons" e a "objetos" "maus". A noção de objeto, em Fairbairn, é personalizada: o objeto é certa imagem "cristalizada" de uma [[lexico:p:pessoa|pessoa]]. Ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], ao lado dos objetos "totais" existem os "objetos parciais". Um objeto total é uma imagem inalcançável, alienada, do outro , de uma pessoa com quem nós nos devemos relacionar dentro do [[lexico:m:mundo|mundo]], mas que vemos como inacessível . Sendo absolutamente [[lexico:i:imperativo|imperativo]] tal relacionamento, ele se fará não com a própria pessoa, mas sim com o objeto que associamos a (e substituímos por) ela. O processo é esquizóide, isto é, há um corte [[lexico:a:a-priori|a priori]] entre o outro e nós. No objeto parcial, uma [[lexico:p:parte|parte]] (não personalizada, isto é, não ligada à consciência) do outro constitui a base da imagem com a qual estabeleceremos nossa [[lexico:r:relacao|relação]]. No objeto parcial, à [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] do relacionamento com o outro se acrescenta a impossibilidade de totalizar o outro, de compreendê-lo como uma [[lexico:p:personalidade|personalidade]], como um [[lexico:i:individuo|indivíduo]]. A fetichização é um processo associado a objetos parciais; por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], hoje em dia, por trás da propaganda sobre a "[[lexico:l:libertacao|libertação]] da mulher" existe um processo radical de fetichização. Recentemente uma revista ilustra reportagem sobre a "Nova Mulher" com uma fotografia de uma mulher deitada, da qual não se via a parte [[lexico:s:superior|superior]] do [[lexico:c:corpo|corpo]] (isto é, a cabeça e o busto), vestida com uma mini-saia de couro e botas. Esta imagem da "mulher emancipada" é um objeto parcial: não tem personalidade (o rosto foi cortado fora da fotografia), e os [[lexico:e:elementos|elementos]] que dominam e caracterizam seu corpo são representações do [[lexico:j:jogo|jogo]] erótico (a mini-saia de couro e as botas metaforizam o pênis fetichizado). As representações que fundam o objeto parcial se associam aos processos orgânicos não individualizáveis de nosso corpo; o [[lexico:s:sexo|sexo]] e as funções excretoras pertencem a esta categoria. Expressões como "a animalidade do sexo" ou "a brutalidade [[lexico:e:erotica|erótica]]" se fundam em objetos parciais. A [[lexico:a:analitica-do-objeto|analítica do objeto]]. Tanto as ideias de Marx quanto estas considerações psicanalíticas se baseiam em "teorias do objeto", ou seja, em teorias que elucidam objetos dentro de uma ontologia fixada a priori. Em Marx, por exemplo, esta ontologia é a [[lexico:p:praxis|praxis]], (v. [[lexico:m:modo-de-producao|modo de produção]]) a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] da [[lexico:e:existencia|existência]] através dos processos sociais de [[lexico:i:interacao|interação]] e troca. Na psicanálise, nas primeiras tentativas de [[lexico:f:freud|Freud]], este [[lexico:f:fundamento|fundamento]] [[lexico:o:ontologico|ontológico]] poderia ser a [[lexico:b:biologia|biologia]]; mais tarde, no entanto, fica fácil perceber a irredutibilidade das posições freudianas a uma teoria biológica. Em Fairbairn a noção de objeto é muito mais fenomenológica do que seria se apenas uma noção baseada em certa ontologia fundadora (como o pode aqui ser a biologia) . Surge então a [[lexico:p:pergunta|pergunta]]: poderia uma análise fenomenológica desenvolver uma teoria do objeto capaz de elucidar posições tão afastadas quanto as teorias econômicas do objeto e as teorias psicanalíticas do objeto, e sem ser uma [[lexico:r:reducao|redução]] disfarçada da primeira à segunda, ou vice-versa? Esta pergunta só pode ser efetivamente respondida se desenvolvermos tal teoria do objeto. Ela será a [[lexico:a:analitica|analítica]] do objeto, e pretenderá ao [[lexico:s:status|status]] de uma ontologia fundamental para as demais teorias do objeto. No sentido em que usamos, o termo, todas as analíticas do objeto são neo-heideggerianas, desde que a primeira delas é a [[lexico:a:analitica-da-existencia|analítica da existência]] de [[lexico:h:heidegger|Heidegger]]. Entre as construções mais notáveis se acham desde os trabalhos de [[lexico:m:merleau-ponty|Merleau-Ponty]] até os de Laing. As noções que aqui resumimos foram extensamente expostas em outra parte. Inicialmente, é preciso esclarecer o sentido do termo "analítica". O que funda uma analítica é a [[lexico:e:experiencia|experiência]] [[lexico:a:apofantica|apofântica]]; etimologicamente, [[lexico:a:apophansis|apophansis]] significa "o que se desvela". A experiência da apophansis é a experiência de uma [[lexico:r:realidade|realidade]] existencialmente incontestável. Num museu, o dedo que percorre um quadro até pouco antes indiferente para nós realiza um gesto [[lexico:a:apofantico|apofântico]], e nos "revela" o quadro, "como nunca antes o havíamos visto". É a apophansis da [[lexico:o:obra|obra]] de [[lexico:a:arte|arte]]. Como também será a apophansis do poema ouvi-lo lido "com uma entonação especial", ou "numa circunstância diferente". A "entonação especial", a "circunstância diferente" são os gestos apofânticos, e a experiência da "[[lexico:b:beleza|beleza]]" do poema é sua apophansis. A analítica do objeto deseja ser o gesto apofântico que provoca a experiência da [[lexico:n:natureza|natureza]] do objeto. Crítica da noção de "analítica". Dentro desta acepção dos termos "analítica", apophansis, e "gesto apofântico", o [[lexico:p:proprio|próprio]] pensamento de Heidegger deseja ser um gesto apofântico: aquele que revela a experiência da "[[lexico:h:historia|História]] do Ser’" Como o próprio Heidegger nos diz num de seus últimos textos, trata-se de se obter "a experiência de algo que não pode ser trazido abertamente à [[lexico:l:luz|luz]] do dia". A noção de analítica, vista como a preparação de uma apophansis, é uma noção aparentemente paradoxal. Por um lado, a analítica pretende indicar uma realidade "que não pode ser dita", "que está [[lexico:a:alem|além]] da [[lexico:l:linguagem|linguagem]]". Por outro lado, será através da linguagem que a analítica se constituirá. Este [[lexico:p:paradoxo|paradoxo]] pode ser levantado se percebermos como a própria experiência da apophansis é o que funda a linguagem; a linguagem nos conduz a uma apophansis e a apophansis nos prepara uma "nova" linguagem. Metaforicamente, a apophansis é o [[lexico:s:silencio|silêncio]] que conduz à linguagem articulada. Uma bela sinfonia "nos tira a [[lexico:f:fala|fala]]", mas pode revelar em nós uma [[lexico:v:vocacao|vocação]] musical; a [[lexico:a:angustia|angústia]] "paralisante" que nos domina após o término do caso amoroso pode nos abrir a experiência da [[lexico:f:facticidade|facticidade]] de nossa existência, e possibilitar a [[lexico:c:constituicao|constituição]] de um fundamento mais sólido para nossa [[lexico:v:vida|vida]]. Assim, o [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] da apophansis é irredutível; a [[lexico:p:psicologia|psicologia]] gestaltista, por exemplo, pode associá-lo ao "insight", e pode desenvolver toda uma teoria que o explique dentro de [[lexico:c:categorias|categorias]] como o "encontro da melhor [[lexico:f:forma|forma]]" ou [[lexico:s:semelhante|semelhante]]. Mas já o [[lexico:f:fato|fato]] de nós explicarmos a apóphansis através de uma categoria representa nós nos afastarmos da experiência do silêncio que é seu centro. Para os gregos [[lexico:p:pre-socraticos|pré-socráticos]], o núcleo da "[[lexico:v:verdade|verdade]]" ([[lexico:a:aletheia|aletheia]]) como "desvelamento" era a lethe, a "ocultação". Da mesma forma, a experiência da apophansis é o silêncio que precede a linguagem, e que a torna possível. Nenhuma experiência é redutível à linguagem, mas a linguagem pode preparar uma experiência.