===== AMOR HEROYCUS ===== A mesma [[lexico:t:tradicao|tradição]] que associa o [[lexico:t:temperamento|temperamento]] melancólico à [[lexico:p:poesia|poesia]], à [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] e à [[lexico:a:arte|arte]], atribui-lhe uma exasperada inclinação para o [[lexico:e:eros|Eros]]. [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], depois de [[lexico:t:ter|ter]] afirmado a [[lexico:v:vocacao|vocação]] genial dos melancólicos, apresenta a luxúria entre as suas características essenciais: *O temperamento da bílis negra — escreve — tem a [[lexico:n:natureza|natureza]] do [[lexico:s:sopro|sopro]]... Disso provém que, em [[lexico:g:geral|geral]], os melancólicos sejam depravados, pois até o [[lexico:a:ato|ato]] venéreo tem a natureza de um sopro. A [[lexico:p:prova|prova]] é que o membro viril se incha improvisamente porque se enche de vento.* A partir desse [[lexico:m:momento|momento]], o desregramento erótico aparece entre os atributos tradicionais do [[lexico:h:humor|humor]] negro []; e se, analogamente, também o acidioso é representado nos tratados medievais sobre os vícios como “φιλήδονος”, e [[lexico:a:alcuino|Alcuíno]] pode afirmar dele que “se entorpece nos desejos carnais”, na [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] fortemente moralizada da [[lexico:t:teoria|teoria]] dos [[lexico:h:humores|humores]] de Hildegard von Bingen, o Eros abnorme do melancólico assume até mesmo o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] de um transtorno sádico e selvagem: *(os melancólicos) têm ossos grandes que contêm pouco tutano, que, porém, arde com tanta [[lexico:f:forca|força]] que eles são, como víboras, desenfreados com as [[lexico:m:mulheres|mulheres]]... são excessivos na [[lexico:l:libido|libido]] e, como os asnos, sem [[lexico:m:medida|medida]] com as mulheres, de tal [[lexico:f:forma|forma]] que, se cessassem dessa depravação, facilmente se tornariam loucos... o seu abraço é odioso, tortuoso e mortífero como o dos lobos rapaces... mantêm comércio com as mulheres, e na mesma medida as odeiam. * Mas o [[lexico:n:nexo|nexo]] entre [[lexico:a:amor|amor]] e [[lexico:m:melancolia|melancolia]] já havia encontrado há [[lexico:t:tempo|tempo]] o seu [[lexico:f:fundamento|fundamento]] [[lexico:t:teorico|teórico]] em uma tradição médica que considera, com frequência, doenças afins, senão idênticas, o amor e a melancolia. Nessa tradição, que já surge completamente desenvolvida no Viaticum do médico árabe Haly Abbas (o qual, através da [[lexico:t:traducao|tradução]] de Constantino Africano, influenciou profundamente a medicina europeia medieval), o amor, que comparece com o [[lexico:n:nome|nome]] amor hereos ou [[lexico:a:amor-heroycus|amor heroycus]], e a melancolia estão catalogados na lista das doenças da [[lexico:m:mente|mente]] em rubricas contíguas [v. alienatio] e às vezes, como ocorre no [[lexico:s:speculum|speculum]] doctrinale, de Vicente de Beauvais, aparecem sob a mesma rubrica: “de melancolia nigra et canina et de amore qui ereos dicitur” [“sobre a melancolia negra e canina e sobre o amor que se denomina ‘ereos’”]. Essa proximidade [[lexico:s:substancial|substancial]] entre a patologia [[lexico:e:erotica|erótica]] e a melancólica encontra [[lexico:e:expressao|expressão]] no De amore de Ficino. O [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:p:processo|processo]] do enamoramento converte-se nesse caso no [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] que abala e subverte o equilíbrio humoral, enquanto, inversamente, a empedernida inclinação contemplativa do melancólico o empurra fatalmente para a [[lexico:p:paixao|paixão]] amorosa. A obstinada [[lexico:s:sintese|síntese]] figurativa que daí resulta e que leva Eros a assumir os obscuros traços saturninos do temperamento mais sinistro continuaria presente durante séculos na [[lexico:i:imagem|imagem]] popular do enamorado melancólico, cuja mirrada e ambígua caricatura por um [[lexico:b:bom|Bom]] tempo reaparece entre os emblemas do humor negro no frontispício dos tratados do século XVII sobre a melancolia: *Para onde quer que se dirija a [[lexico:i:intencao|intenção]] assídua da [[lexico:a:alma|alma]], para lá afluem também os [[lexico:e:espiritos|espíritos]], que são o veículo ou os instrumentos da alma. Os espíritos são produzidos no [[lexico:c:coracao|coração]] com a [[lexico:p:parte|parte]] mais sutil do [[lexico:s:sangue|sangue]]. A alma do amante é arrastada para a imagem do amado inscrita na [[lexico:f:fantasia|fantasia]] e para o próprio amado. Para lá também são atraídos os espíritos e, no seu obsessivo voo, acabam aí. Por isso é [[lexico:n:necessario|necessário]] um reabastecimento constante de sangue [[lexico:p:puro|puro]] a [[lexico:f:fim|fim]] de recriar os espíritos consumidos, ali onde as partículas mais delicadas e mais transparentes do sangue exalam [[lexico:t:todo|todo]] dia a fim de regenerar os espíritos. Por [[lexico:c:causa|causa]] disso o sangue puro e claro se dilui e [[lexico:n:nao|não]] sobra senão o sangue impuro, espesso, árido e escuro. Assim, o [[lexico:c:corpo|corpo]] se disseca e deteriora, e os amantes tornam-se melancólicos. É, portanto, um sangue seco, espesso e escuro que produz a melancolia ou bílis negra, que enche a cabeça com os seus vapores, seca o cérebro e oprime a alma, sem descanso, dia e noite, com tétricas e apavorantes visões... E por terem observado tal [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] que os médicos da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] afirmaram que o amor é uma paixão próxima da enfermidade melancólica. O médico Rasis prescreve, por este [[lexico:m:motivo|motivo]], para a [[lexico:c:cura|cura]], o coito, o jejum, a embriaguez, a marcha... [M. FICINO. De amore. Edição crítica de R. Marcel. Paris, 1956, VI 9.]* Na mesma passagem, o [[lexico:c:carater|caráter]] próprio do Eros melancólico acaba identificado por Ficino com um deslocamento e um abuso: “Isso sói acontecer” — escreve ele — “com aqueles que, abusando do amor, transformam o que compete à [[lexico:c:contemplacao|contemplação]] em [[lexico:d:desejo|desejo]] de abraço.” A intenção erótica que desencadeia a [[lexico:d:desordem|desordem]] melancólica apresenta-se aqui como aquela que pretende possuir e tocar o que deveria [[lexico:s:ser|ser]] apenas [[lexico:o:objeto|objeto]] de contemplação, e a trágica insanidade do temperamento saturnino encontra assim a sua [[lexico:r:raiz|raiz]] na intima [[lexico:c:contradicao|contradição]] de um gesto que pretende abraçar o inapreensível. Nessa [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]], deve ser interpretada a passagem de Henrique de Gand que [[lexico:p:panofsky|Panofsky]] relaciona com a imagem düreriana, e segundo a qual os melancólicos “não podem conceber o [[lexico:i:incorporeo|incorpóreo]]” como tal, pois não sabem “estender sua [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] para [[lexico:a:alem|além]] do [[lexico:e:espaco|espaço]] e da [[lexico:g:grandeza|grandeza]]”. Não se trata simplesmente, conforme se pensou, de um [[lexico:l:limite|limite]] [[lexico:e:estatico|estático]] da [[lexico:e:estrutura|estrutura]] mental dos melancólicos que os exclua da [[lexico:e:esfera|esfera]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]], mas sim de um limite dialético que adquire seu [[lexico:s:sentido|sentido]] na [[lexico:r:relacao|relação]] com o [[lexico:i:impulso|impulso]] erótico de transgressão, que transforma a intenção contemplativa em “[[lexico:c:concupiscencia|concupiscência]] de abraço”. A incapacidade de conceber o incorpóreo e o desejo de o tornar objeto de abraço são as duas faces do mesmo processo, no transcurso do qual a tradicional vocação contemplativa do melancólico se revela exposta a um transtorno do desejo que a ameaça de dentro. É curioso que esta constelação erótica da melancolia tenha tão tenazmente passado despercebida aos estudiosos que procuraram delinear a genealogia e os significados da Melencolia düreriana. Toda interpretação que prescinda da fundamental pertinência do humor negro à esfera do desejo erótico, por mais que possa decifrar uma a uma as figuras inscritas à sua volta, está condenada a passar ao largo do [[lexico:m:misterio|mistério]] que se plasmou emblematicamente nessa imagem. Só se compreendermos que se situa sob o [[lexico:s:signo|signo]] de Eros, podemos conservar e, ao mesmo tempo, revelar seu segredo, cuja intenção alegórica está inteiramente subentendida no espaço entre Eros e seus fantasmas. [AgambenE:39-42]