===== ALMA BELA ===== (gr. kale [[lexico:p:psyche:start|psyche]]; fr. Belle âme; al. Schöne Seele; it. [[lexico:a:anima:start|anima]] bella). Essa [[lexico:e:expressao:start|expressão]] tem [[lexico:o:origem:start|origem]] [[lexico:m:mistica:start|mística]]: [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] já falava da [[lexico:a:alma-bela:start|alma bela]], que é a [[lexico:a:alma:start|alma]] que retorna a si mesma ou é ela mesma (Enn., V, 8, 13), recordando talvez a "[[lexico:b:beleza:start|beleza]] nas almas" de que [[lexico:p:platao:start|Platão]] falava como [[lexico:f:forma:start|forma]] de beleza [[lexico:s:superior:start|superior]] à beleza do [[lexico:c:corpo:start|corpo]] (O Banq., 210 b). Essa expressão reaparece nos místicos espanhóis do século XVI. Expressão equivalente (Beauty of the Heart) e a mesma expressão (belle âme) encontram-se, respectivamente, em Shaftesbury e em Nova Heloísa (1761) de [[lexico:r:rousseau:start|Rousseau]]. Mas no seu [[lexico:s:significado:start|significado]] específico, essa expressão foi usada pela primeira vez por Friedrich von Schiller para indicar o [[lexico:i:ideal:start|ideal]] de uma alma [[lexico:n:nao:start|não]] só "virtuosa" (isto é, cuja [[lexico:v:vontade:start|vontade]] é determinada pelo [[lexico:d:dever:start|dever]]), mas também "graciosa", no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de que nela a [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]] concorda espontaneamente com a [[lexico:l:lei-moral:start|lei moral]]. "Chama-se alma bela", diz Schiller, "a alma em que o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] [[lexico:m:moral:start|moral]] acabou por assenhorear-se de todas as afeições do [[lexico:h:homem:start|homem]], a [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de poder, sem receio, entregar à sensibilidade a direção da vontade, sem nunca correr o [[lexico:r:risco:start|risco]] de achar-se em desacordo com as decisões desta... Uma alma bela não tem [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:m:merito:start|mérito]] que o de [[lexico:e:existir:start|existir]]. Com facilidade, [[lexico:c:como-se:start|como se]] o [[lexico:i:instinto:start|instinto]] agisse por ela, cumpre os deveres mais penosos pela [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] e o [[lexico:s:sacrificio:start|sacrifício]] mais heroico, que ela arrebata do instinto [[lexico:n:natural:start|natural]], aparece como livre [[lexico:e:efeito:start|efeito]] desse mesmo instinto" (Werke, ed Karpeles, XI, 202. Cf. Pareyson, A [[lexico:e:estetica:start|estética]] do [[lexico:i:idealismo-alemao:start|idealismo alemão]], pp. 239 ss.). [[lexico:k:kant:start|Kant]] não refutou decididamente [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de Schiller e, mesmo atenuando-o, não negou que a [[lexico:v:virtude:start|virtude]] pudesse ou devesse concordar com a [[lexico:g:graca:start|graça]] (Religion, I, obs., [[lexico:n:nota:start|nota]]). Aliás, em [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]] (I, § 67), adotou a expressão alma bela, entendendo por ela o "ponto central em torno do qual o [[lexico:j:juizo:start|juízo]] de [[lexico:g:gosto:start|gosto]] reúne todas as suas apreciações do [[lexico:p:prazer:start|prazer]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que este pode unificar-se com a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]]". Esse conceito viria a [[lexico:t:ter:start|ter]] grande importância no [[lexico:r:romantismo:start|Romantismo]]. [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] retomou-o em [[lexico:f:fenomenologia-do-espirito:start|fenomenologia do espírito]] (VI, C, c): a alma bela é uma [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] que "vive na ânsia de manchar com a [[lexico:a:acao:start|ação]] e com o existir a honestidade do seu interior"; que, não querendo renunciar à sua refinada [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]], exprime-se somente com [[lexico:p:palavras:start|palavras]] e que, se deseja agir, perde-se em absoluta [[lexico:i:inconsistencia:start|inconsistência]]. [[lexico:g:goethe:start|Goethe]] dedicou à "confissão de uma alma bela" o VI livro das Experiências de Wilhelm Meister e a fazia [[lexico:f:falar:start|falar]] assim; "Não me recordo de nenhuma [[lexico:o:ordem:start|ordem]]; [[lexico:n:nada:start|nada]] me aparece com forma de [[lexico:l:lei:start|lei]]; é um [[lexico:i:impulso:start|impulso]] que me conduz e me guia sempre retamente; sigo livremente minhas disposições e sei tão pouco de limitações quanto de arrependimentos". A alma bela é uma das figuras típicas do Romantismo: a [[lexico:e:encarnacao:start|encarnação]] da [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]], não como [[lexico:r:regra:start|regra]] ou dever, mas como efusão do [[lexico:c:coracao:start|coração]] ou do instinto. [[lexico:s:scheler:start|Scheler]], mesmo apercebendo-se do decadentismo dessa [[lexico:n:nocao:start|noção]] romântica, considera ainda que "a antiga [[lexico:q:questao:start|questão]] a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] da [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre a alma bela, que quer o [[lexico:d:dever-ser:start|dever-ser]] ideal e o realiza não por dever, mas por inclinação, e o [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] ‘pelo dever’, a que Kant reduz [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:v:valor:start|valor]] moral, deve [[lexico:s:ser:start|ser]] resolvida no sentido de que a alma bela é não só de igual valor, mas de valor superior" (Formalismus, p. 226). Mas, no [[lexico:u:uso:start|uso]] contemporâneo, essa expressão assumiu um significado irônico e motejador, designando a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] de [[lexico:q:quem:start|quem]] vive satisfeito com a sua suposta [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] moral, ignorando ou desconhecendo os problemas efetivos, as dificuldades e as lutas que tornam difícil o exercício da [[lexico:a:atividade:start|atividade]] moral eficaz. Essa reviravolta de apreciação deve-se, provavelmente, a [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]], que, em [[lexico:g:genealogia-da-moral:start|Genealogia da Moral]] (I, § 10), descreveu os puros de coração, as alma belas que embandeiram poeticamente suas [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]], como "homens do [[lexico:r:ressentimento:start|ressentimento]]", que estremecem com um [[lexico:e:espirito:start|espírito]] subterrâneo de vingança contra aqueles que encarnam a [[lexico:r:riqueza:start|riqueza]] e o poder da [[lexico:v:vida:start|vida]] (v. ressentimento). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}