===== ALEGORISMO ===== De início, digamos: [[lexico:n:nao|não]] é fácil resistir ao [[lexico:p:pendor|pendor]] alegórico. Não há muito que se afirma, com suspeita veemência, que o [[lexico:m:mito|mito]] não é [[lexico:a:alegoria|alegoria]], mas, sim, [[lexico:t:tautegoria|tautegoria]] (o primeiro foi [[lexico:s:schelling|Schelling]]; um século depois, [[lexico:c:cassirer|Cassirer]]). E se insinuamos que a veemência desperta suspeitas é porque, na [[lexico:v:verdade|verdade]], não incidiu ainda tão vigoroso [[lexico:a:acento|acento]] no tautegorismo do mito, que para sempre ensurdecêssemos ao apelo do alegorismo. Ainda escutamos o apelo quando, respondendo a tácita ou expressa [[lexico:p:pergunta|pergunta]] acerca do [[lexico:s:significado|significado]] de um mito ou de algum de seus mais relevantes episódios, respondemos com a [[lexico:e:explicacao|explicação]] que melhor nos pareça, em vez de repetir literalmente o [[lexico:r:relato|relato]], o que, evidentemente, deveríamos fazer, caso estivéssemos radicalmente persuadidos de que a tautegoria é [[lexico:p:propriedade|propriedade]] inalienável do que quer que se haja por [[lexico:m:mitico|mítico]]. A não [[lexico:s:ser|ser]] que repetindo o que já escrevemos em [[lexico:o:outro|outro]] contexto, a pergunta: «Que significa...?» se refira à [[lexico:s:significacao|significação]] que o mito confere, e não à que lhe é conferida. Quanto a mim, estou convencido de que um mito confere significação e que [[lexico:n:nada|nada]] existe que lha confira a ele. Admitamos, todavia, que em algum dos mais escusos recônditos do alegorismo se esconda pelo menos um germe de [[lexico:v:veracidade|veracidade]], isto é, que, de algum [[lexico:m:modo|modo]], o mito «quer dizer» o que efetivamente «não diz». Deixemos à margem da [[lexico:d:discussao|discussão]] o «o não diz» e prestemos o melhor de nossa [[lexico:a:atencao|atenção]] ao «quer dizer». O mito «quer dizer», e só isso importa. Que diga ou não o que quer dizer, é uma [[lexico:a:alternativa|alternativa]] que não se pode decidir levianamente. Mas, ao que nos parece, no «quer dizer» já está [[lexico:i:implicito|implícito]] que o mito diz o que quer dizer. Por que não havia de dizer o que quer? A quase irremediável confusão só nasce com o desacordo dos intérpretes acerca do que o mito lhes diz, o que ainda não significa que o mito não diga o que quer dizer, mas tão-só que os intérpretes não acertam e não se concertam no que tange o já [[lexico:d:dito|dito]] pelo mito que o quis dizer. Contra mim mesmo falo: muitas vezes defendi a [[lexico:o:opiniao|opinião]] de que a [[lexico:e:exegese|exegese]] alegórica dos mitos foi um lamentável transvio. Não que hoje pense o contrário. Só pretendo descobrir uma acertada [[lexico:c:consequencia|consequência]] do alegorismo. Emendemos a [[lexico:f:formula|fórmula]]: o mito «quer dizer» e diz o que efetivamente diz. A exegese alegórica dos mitos gregos não se pode [[lexico:t:ter|ter]] exercido totalmente em vão durante mais de dois mil e quinhentos anos: fenômenos telúricos e urânicos, sentimentos e emoções humanas, reações desesperadas dos indivíduos às irresistíveis pressões da coletividade, situações-limites, como o nascimento e a [[lexico:m:morte|morte]], as metamorfoses do [[lexico:h:homem|homem]], designadamente, a passagem da infância à puberdade — entre tudo isso, há o que poderia ser o dito que um mito quis dizer. Por enquanto, dou-me por satisfeito com esta conclusão: assim encarado, o mito não é certamente «biografia dos [[lexico:d:deuses|deuses]]»; é só maneira de se [[lexico:f:falar|falar]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] e do homem. [EudoroMito:44-45]