===== AGRESSÃO ===== Enquanto quase todas as teorias em vigor sobre a agressão se desenvolveram no século XX, as questões conceituais básicas e os debates importantes têm raízes [[lexico:b:bem:start|Bem]] mais antigas. Discussões recentes sobre até que [[lexico:p:ponto:start|ponto]] a agressão está biologicamente enraizada na [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]] fazem reviver temas do [[lexico:l:leviata:start|Leviatã]], de Thomas [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]], e da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] liberal de Jean-Jacques [[lexico:r:rousseau:start|Rousseau]]. [[lexico:f:freud:start|Freud]] (1920), por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], restaura muitas das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] originais de Hobbes sobre a brutalidade inerente do [[lexico:h:homem:start|homem]] para com seus companheiros, em uma moldura psicanalítica, fornecendo um [[lexico:m:modelo:start|modelo]] posteriormente emulado em um [[lexico:c:campo:start|campo]] bastante distinto - o da [[lexico:e:etologia:start|etologia]] - por Konrad Lorenz (1966) e os neodarwinistas. Essas abordagens, concentrando-se em pressuposições bastante simplistas sobre mecanismos instintivos, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] em que são extensamente revistas em obras didáticas mais importantes, estão amplamente excluídas das tentativas correntes de [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a agressão. O [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] da [[lexico:o:obra:start|obra]] de Freud que se concentra na agressão é encarado, com a [[lexico:v:vantagem:start|vantagem]] do exame em retrospectiva, como uma tentativa um tanto apressada de preencher lacunas evidentes em sua abordagem teórica, que se apoiava excessivamente no [[lexico:p:principio-do-prazer:start|princípio do prazer]] para explicar os processos psicológicos e o [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] [[lexico:h:humano:start|humano]]. A [[lexico:c:catastrofe:start|catástrofe]] sangrenta da Primeira [[lexico:g:guerra:start|guerra]] Mundial exigia um modelo bastante diferente, e assim surgiu [[lexico:t:thanatos:start|thanatos]], ou o [[lexico:i:instinto:start|instinto]] de [[lexico:m:morte:start|morte]]: "Como resultado de um pouco de [[lexico:e:especulacao:start|especulação]], viemos a supor que [[lexico:e:esse:start|esse]] instinto está em [[lexico:a:acao:start|ação]] dentro de cada criatura viva, lutando para levá-la à ruína e para reduzir a [[lexico:v:vida:start|vida]] à sua [[lexico:c:condicao:start|condição]] original de [[lexico:m:materia:start|matéria]] inanimada". Uma dificuldade [[lexico:p:particular:start|particular]] com essas antigas teorias do instinto era a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] central de "[[lexico:e:espontaneidade:start|espontaneidade]]". A agressão [[lexico:n:nao:start|não]] apenas seria geneticamente pré-programada, e portanto inerradicável, como também assumiria a [[lexico:f:forma:start|forma]] de um [[lexico:i:impulso:start|impulso]] que devia [[lexico:s:ser:start|ser]] consumado, canalizado ou deslocado. Expressões de agressão, quer na forma de [[lexico:v:violencia:start|violência]] interpessoal ou em alguma forma menos direta, eram portanto inevitáveis. O que se enfatizava era a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de direcionar essa [[lexico:f:forca:start|força]] hidráulica, em vez dos meios de reduzi-la. Esportes vigorosos e competição [[lexico:f:fisica:start|física]] eram encarados como ingredientes essenciais no controle da agressão máscula ([[lexico:n:natural:start|natural]]), fornecendo boa [[lexico:p:parte:start|parte]] das bases racionais do [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de ensino [[lexico:p:publico:start|público]] britânico. Embora essas perspectivas, tal como aspectos de muitas das primeiras teorias psicológicas, tenham sido incorporadas a "representações sociais" leigas da agressão e da violência, as modernas explicações da agressão nas [[lexico:c:ciencias-sociais:start|ciências sociais]] evitam praticamente todas as noções de fatores genéticos e substratos biológicos. A ampla maioria dos trabalhos publicados a partir dos anos 50 dá ênfase ao papel do aprendizado, das condições sociais e da [[lexico:p:privacao:start|privação]]. O que se presume essencialmente é que a agressão seja uma forma de comportamento, em vez de uma força psicológica primária, e que, como qualquer [[lexico:o:outro:start|outro]] comportamento, pode ser modificada, controlada e até mesmo erradicada. Isso também fica patente na obra, com base em trabalhos de laboratório, de psicólogos como Bandura (1973) e nas abordagens sociológicas de autores tão variados quanto Wolfgang e Wei-ner (1982) e Downes e Rock (1979). Encontramos [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] ênfase na [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] "liberal" da agressão na [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]] [[lexico:s:social:start|social]] do pós-guerra, com um grande [[lexico:e:esforco:start|esforço]] sendo dedicado à [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] de sociedades totalmente pacíficas em que a agressão não existe, ou não existiu - desse [[lexico:m:modo:start|modo]] desmascarando com firmeza a falsa [[lexico:p:presuncao:start|presunção]] de um determinante [[lexico:g:genetico:start|genético]]. Essas tentativas foram, de modo [[lexico:g:geral:start|geral]], inconvincentes. De [[lexico:f:fato:start|fato]], conforme destacou Fox (1968), as visões ingênuas dos bosquímanos do Kalahari como um [[lexico:p:povo:start|povo]] livre de agressão erraram o alvo, uma vez que foi provado que eles tinham uma taxa de homicídios mais elevada que a de Chicago. Até certo ponto, a rejeição das teorias biológicas da agressão deve-se não apenas à manifesta inadequação dessa teorias, mas também à gradual introdução do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de "politicamente correto" nos debates acadêmicos e nas ciências sociais. Não se pode dizer que as pessoas são naturalmente agressivas porque isso significaria assumir que a violência e a [[lexico:d:destruicao:start|destruição]] jamais poderiam ser erradicadas. Isso, ao contrário do que acontecia nas primeiras décadas do século, não se enquadra absolutamente no Zeitgeist intelectual contemporâneo. Essa nova polarização, e o acalorado debate natureza-educação que ocupou a maior parte do século, provavelmente depreciou, mais do que qualquer outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]], uma compreensão "sensata" da agressão. Marsh (1978, 1982) sustentou que a [[lexico:d:discussao:start|discussão]] sobre se a agressão tem uma [[lexico:r:raiz:start|raiz]] biológica ou é aprendida é eminentemente [[lexico:i:irrelevante:start|irrelevante]], uma vez que (a) ela é indubitavelmente ambas as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] e (b) os prognósticos de modificação de comportamento não são muito diferentes em ambos os casos. Pode-se fazer aqui uma [[lexico:a:analogia:start|analogia]] com o comportamento sexual. Seria tolice supor que a sexualidade humana não tem bases genéticas, biológicas e hormonais. Mas o comportamento sexual é, em grande parte, controlado por [[lexico:m:meio:start|meio]] de quadros de regras culturais e sociais. As pessoas, no geral, não consumam seus impulsos sexuais de forma aleatória e espontânea - são obrigadas a seguir convenções sociais e a observar exigências rituais. Todas as culturas desenvolvem "soluções" que maximizam as vantagens da sexualidade e inibem suas consequências potencialmente negativas. Tornou-se cada vez mais fora de [[lexico:m:moda:start|moda]] nas ciências sociais sugerir que a agressão tenha qualquer [[lexico:v:valor:start|valor]] [[lexico:p:positivo:start|positivo]]. De fato, muitas definições correntes da agressão excluem tal [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]]. Em [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]], a [[lexico:d:definicao:start|definição]] predominante é a de "comportamento [[lexico:i:intencional:start|intencional]] destinado a ferir outra [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] que está motivada a evitá-lo". Em outros campos das ciências sociais, a agressão é com maior frequência encarada como um comportamento "inadaptado", ou como uma [[lexico:r:reacao:start|reação]] infeliz a condições sociais patológicas ([[lexico:v:ver:start|ver]] também crime e transgressão). Somente em campos como a [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]] marxista podemos encontrar o ponto de vista de que a agressão é uma forma de [[lexico:c:conduta:start|conduta]] [[lexico:r:racional:start|racional]] e justificada. No [[lexico:d:discurso:start|discurso]] ordinário, no entanto, fica claro que a agressão é encarada como tendo conotações tanto positivas quanto pejorativas. No [[lexico:m:mundo:start|mundo]] dos esportes, é comum elogiarmos o atleta por fazer uma corrida agressiva, ou termos em grande estima o zagueiro valente e agressivo. Nessas arenas, a agressão não é apenas permissível. Ela é um ingrediente [[lexico:e:essencial:start|essencial]] para a [[lexico:d:distincao:start|distinção]]. Da mesma forma, no mundo dos negócios a agressão é a marca do empreendedor altamente considerado, sem o qual tanto a Grã-Bretanha pós-Thatcher quanto o [[lexico:e:estilo:start|estilo]] Americano do século XX poderiam definhar e morrer. Não surpreende que autores como Bandura (1973) tenham classificado o campo da agressão como uma "selva [[lexico:s:semantica:start|semântica]]". Com muitas centenas de definições da agressão permeando as ciências sociais, é inevitável que reine a confusão e que discussões desnecessárias dominem o debate. As abordagens mais promissoras são as que deixaram para trás o debate natureza-educação e se concentraram na compreensão de formas específicas de comportamento agressivo e nos fatores que o influenciam. A [[lexico:a:analise:start|análise]] dos quadros sociais que estimulam ou inibem exibições de agressão também se mostrou fértil na [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] de fenômenos sociais como o vandalismo das torcidas de futebol (Marsh, 1978), a violência feminina (Campbell, 1982), a violência [[lexico:p:politica:start|política]] extremista (Billig, 1978) etc. Trabalhos voltados para o papel de mecanismos fisiológicos específicos (como Brain, 1986) também têm contribuído para um debate mais racional, em que existem bem menos obstáculos para se examinar a [[lexico:i:interacao:start|interação]] complexa entre fatores biológicos e sociais. Quer encaremos a agressão como uma patologia evitável ou como um componente inevitável da [[lexico:c:condicao-humana:start|condição humana]], nossa compreensão dos fenômenos só irá aumentar se o foco se concentrar em tentar [[lexico:s:saber:start|saber]] por que certos indivíduos em certos contextos sociais demonstram extrema antipatia uns para com os outros a [[lexico:f:fim:start|fim]] de atingirem metas específicas, quer essas metas sej am causar dano a outrem ou desenvolver [[lexico:p:prestigio:start|prestígio]] e [[lexico:s:status:start|status]] social. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}