===== AFRODITE ===== Acredita-se que Afrodite ou Vênus, a mais bela das Deusas, era primitivamente venerada como uma Deusa da [[lexico:l:luz|luz]], considerada [[lexico:n:nao|não]] somente na [[lexico:m:magnificencia|magnificência]] variada de suas manifestações no [[lexico:c:ceu|Céu]], mas também em sua [[lexico:a:acao|ação]] fecunda na superfície da [[lexico:t:terra|Terra]]. Não é então na serenidade da luz que as rosas parecem desabrochar, e que a seiva renova, na primavera, a basta cabeleira das florestas? Com o [[lexico:t:tempo|tempo]], a Deusa que surgia na estação que é para o ano o que a aurora é para o dia, tornou-se a rainha da [[lexico:b:beleza|beleza]] do [[lexico:m:mundo|mundo]], a eterna soberana por [[lexico:q:quem|quem]] tudo quanto respira chega à [[lexico:e:existencia|existência]]. Ora, se tudo que é [[lexico:b:belo|belo]] inspira o [[lexico:a:amor|amor]], a Deusa, que criava e propagava a beleza em tudo quanto tem [[lexico:v:vida|vida]], devia também naturalmente tornar-se a Divindade da [[lexico:s:seducao|sedução]], que nos leva a amar tudo o que nos parece belo. Deusa de suave sorriso, Afrodite nasceu da espuma das vagas. Branca e pura como a alva num mar prateado, dizem que ela apareceu, pela primeira vez, nas costas brilhantes de Chipre. O [[lexico:s:sopro|sopro]] úmido de Zéfiro havia impelido, durante muito tempo, sobre as ondas murmurantes, a concha nacarada que continha a Divina. Quando aquela chegou à praia, suas duas valvas abriram-se e Afrodite saltou desse berço marinho. A [[lexico:m:medida|medida]] que caminhava pela areia, as flores brotavam-lhe sob os pés delicados. As Horas, com pequenas tiras de ouro circundando a testa, acolheram-na, enxugaram-lhe o [[lexico:c:corpo|corpo]] gotejante de água salgada, torceram-lhe a loura cabeleira e ataviaram-na com vestimentas perfumadas. Sobre sua cabeça colocaram uma coroa de ouro, fixaram-lhe às orelhas pendentes de flores em metal precioso e enlaçaram ao redor de seu pescoço e no argênteo colo, colares resplendentes. Terminado o ataviamento, as Horas bondosas fizeram avançar um carro puxado por duas pombas. Afrodite nele subiu e abalou para junto dos Imortais. Diante do [[lexico:e:espetaculo|espetáculo]] de sua radiante beleza, a assembleia dos [[lexico:d:deuses|deuses]] pôs-se toda em pé. Todos saudaram-na como uma nova rainha, fazendo-a sentar-se num alto trono. Desde então Afrodite reina sobre os Felizes do Olimpo. A [[lexico:g:graca|graça]] luminosa que brilhava em seus olhos, o encanto impressionante de seu [[lexico:d:divino|divino]] sorriso, a [[lexico:h:harmonia|harmonia]] dos gestos, a nobreza [[lexico:r:real|real]] do andar augusto e dos suntuosos adornos tornaram-na, para todos os Imortais, um espetáculo- duradouro de enlevo e [[lexico:a:alegria|alegria]]. Em torno de Afrodite se concentravam mitos vários, sem muita [[lexico:c:coerencia|coerência]] entre si, o que se deve à tentativa de conciliar uma deusa oriental da fertilização com uma deusa grega do amor. [...] Afrodite é a [[lexico:f:forma|forma]] grega da deusa semítica da fecundidade e das águas fecundantes, Astarté. [...] Com o [[lexico:e:epiteto|epíteto]] de Anadiômene, a [[lexico:s:saber|saber]], “a que surge” das ondas do mar, de um famoso quadro do grande pintor [[lexico:g:grego|grego]] Apeles (século IV a.C), tão logo nasceu, a deusa foi levada pelas ondas ou pelo vento Zéfiro para Citera e, em seguida, para Chipre, daí seus dois outros epítetos de Citeréia e Cípris. Essa [[lexico:o:origem|origem]] dupla da deusa do amor não é estranha à [[lexico:d:diferenciacao|diferenciação]] que se estabeleceu entre Afrodite Urânia e Pandêmia, significando esta última, etimologicamente, a venerada “por [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:p:povo|povo]]”, Pándêmos, e, posteriormente, com [[lexico:d:discriminacao|discriminação]] filosófica e [[lexico:m:moral|moral]], “a popular, a [[lexico:v:vulgar|vulgar]]”. [[lexico:p:platao|Platão]], no [[lexico:b:banquete|Banquete]], 180sq, estabelece uma [[lexico:d:distincao|distinção]] rígida entre a Pandêmia, a inspiradora dos amores comuns, vulgares, carnais, e a Urânia, a deusa que não tem mãe, ametor, e que, sendo Urânia, é, ipso facto, a Celeste, a inspiradora de um amor etéreo, [[lexico:s:superior|superior]], imaterial, através do qual se atinge o amor supremo, como Diotima revelou a [[lexico:s:socrates|Sócrates]]. Este “amor urânico”, desligando-se da beleza do corpo, eleva-se até a beleza da [[lexico:a:alma|alma]], para atingir a Beleza em si, que é partícipe do [[lexico:e:eterno|eterno]]. [BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega (A-I). Petrópolis, RJ: Vozes, 1991]