===== AFETO ===== VIDE [[lexico:a:afeccao|afecção]], [[lexico:a:afetivo|afetivo]] (lat. Affectus; in. Affection; fr. Affection; al. Affektion-; it. Affettó). Entendem-se com [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:termo|termo]], no [[lexico:u:uso|uso]] comum, as emoções positivas que se referem a pessoas e que [[lexico:n:nao|não]] têm o [[lexico:c:carater|caráter]] dominante e totalitário da [[lexico:p:paixao|paixão]]. Enquanto as emoções podem referir-se tanto a pessoas quanto a [[lexico:c:coisas|coisas]], fatos ou situações, os afeto constituem a [[lexico:c:classe|classe]] restrita de emoções que acompanham algumas [[lexico:r:relacoes|relações]] interpessoais (entre [[lexico:p:pais-e-filhos|pais e filhos]], entre amigos, entre parentes), limitando-se à tonalidade indicada pelo [[lexico:a:adjetivo|adjetivo]] "afetuoso", é que, por isso, exclui o caráter exclusivista e dominante da paixão. Essa [[lexico:p:palavra|palavra]] designa o conjunto de atos ou de atitudes como a [[lexico:b:bondade|bondade]], a [[lexico:b:benevolencia|benevolência]], a inclinação, a [[lexico:d:devocao|devoção]], a proteção, o apego, a gratidão, a ternura, etc, que, no seu [[lexico:t:todo|todo]], podem [[lexico:s:ser|ser]] caracterizados como a [[lexico:s:situacao|situação]] em que uma [[lexico:p:pessoa|pessoa]] "preocupa-se com" ou "cuida de" outra pessoa ou em que esta responde, positivamente, aos cuidados ou a [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] de que foi [[lexico:o:objeto|objeto]]. O que comumente se chama de "[[lexico:n:necessidade|necessidade]] de afeto" é a necessidade de ser compreendido, assistido, ajudado nas dificuldades, seguido com olhar benévolo e confiante. Nesse [[lexico:s:sentido|sentido]], o afeto não é senão uma das formas do [[lexico:a:amor|amor]]. a) Com afeto, designamos cada [[lexico:m:mudanca|mudança]] de [[lexico:d:disposicao|disposição]] na [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]], que é provocada por um [[lexico:m:motivo|motivo]] [[lexico:e:exterior|exterior]]. É ligada sempre a uma [[lexico:t:tendencia|tendência]], sem entretanto confundir-se com ela. (Mudança de disposição não significa, evidentemente, uma modificação na [[lexico:e:estrutura|estrutura]] [[lexico:n:natural|natural]] da sensibilidade, mas uma [[lexico:d:determinacao|determinação]] intrínseca, análoga ao que, na [[lexico:r:regiao|região]] cognoscitiva, se nomeia com o termo escolástico “[[lexico:i:intencional|intencional]]”.) Pela [[lexico:d:definicao|definição]] dada, os afetos pertencem aos sentimentos, formando entre eles uma [[lexico:c:categoria|categoria]] própria ao lado das tendências afetivas». b) A confusão reinante na [[lexico:t:terminologia|terminologia]] desse termo e daqueles que lhe são relacionados, torna-se, particularmente, visível no [[lexico:f:fato|fato]] de que afeto» (Francês affection) aplica-se ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] num sentido mais restrito e exclusivo aos fatos hedônicos, de [[lexico:p:prazer|prazer]] e [[lexico:d:dor|dor]], que figuram como sub-grupo dos “afetos” no sentido mais amplo, e sendo de uma [[lexico:n:natureza|natureza]] menos complexa, apoiam-se, como tais, às "emoções” propriamente ditas, que formam o segundo sub-grupo dos afetos, ao lado de “prazer e dor”, mas que, por sua [[lexico:p:parte|parte]], em outra terminologia, incluem esses últimos. As emoções propriamente ditas são a cólera, o medo, a [[lexico:e:esperanca|esperança]], etc, e parece evidente que só o maior [[lexico:g:grau|grau]] de complexidade as distingue dos afetos hedônicos. A [[lexico:p:posicao|posição]] dos “afetos”, perante as “tendências”, que em nossa definição damos como [[lexico:c:condicao|condição]] necessária, [[lexico:e:essencial|essencial]], para a [[lexico:e:existencia|existência]] de um afeto, é delineada por [[lexico:m:maine-de-biran|Maine de Biran]] da maneira seguinte: “O afeto é o que resta de uma [[lexico:s:sensacao|sensação]] completa, quando se separa dela a [[lexico:i:individualidade|individualidade]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]] ou o «[[lexico:e:ego|ego]]» e, com isto, cada [[lexico:f:forma|forma]] de tempo e de [[lexico:e:espaco|espaço]], quando a [[lexico:i:ideia|ideia]] de sensação se acha reduzida à [[lexico:s:simples|simples]] sensação sem ideia de [[lexico:e:especie|espécie]] alguma.» As tendências podem ser ou “inclinações” ou “paixões”. As primeiras caracterizam-se pela relativa insignificância dos fatores fisiológicos, que coincidem com um caráter mais constante, ao passo que as paixões são mais sensuais e mais veementes e impulsivas. c) As paixões diferem das emoções não só pela inclusão nas primeiras de uma tendência ativa, como, também, e exatamente por isso, de uma ainda maior complexidade, sendo a “paixão” definida por Gay como “um prazer ou dor, oriundo da [[lexico:p:previsao|previsão]] de um [[lexico:f:futuro|futuro]] prazer ou dor”. d) As “inclinações” se chamam “eletivas”, quando têm por objeto não uma classe de seres mas um [[lexico:i:individuo|indivíduo]], tornando-se, então, esse termo, derivado do francês (inclination élective), em nosso idioma um sinônimo de «[[lexico:a:afeicao|afeição]]». (A palavra inglesa «affection», igual ao francês «affection», coincide, principalmente, com o nosso «afeto», e tem, no uso popular (inglês) ou com rigor (francês), também o sentido secundário do nosso «afeição»). Os vários termos introduzidos até aqui, neste artigo, reunimos no quadro seguinte: Sentimentos I — afetos: 1) afetos hedônicos: prazer e dor; 2) emoções; II — tendências afetivas: 1) inclinações: a) inclinações gerais; b) inclinações eletivas (afeições) ; 2) paixões. [[lexico:h:historico|Histórico]]: o [[lexico:e:esquema|esquema]] acima é uma tentativa de escolher do uso da [[lexico:l:literatura|literatura]] internacional aqueles termos que parecem os mais aceitáveis e recomendá-los, para ir de encontro à confusão reinante na terminologia contemporânea, concernente aos fenômenos mais inferiores da [[lexico:p:psicologia|psicologia]], a confusão que ainda se multiplica ao levar em conta a [[lexico:h:historia|história]] daquela terminologia. [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] diz: As comoções mentais (motus animi), que os gregos chamam pathe, e Cícero «perturbationes», são chamados, por alguns, «affectus» ou por outros «affectiones», o que equivale ao «passiones», em [[lexico:g:grego|grego]]. Essa identificação entre «[[lexico:p:passio|passio]]» e «affectus» (de passio vem «paixão»), testemunhada por Agostinho, e adotada por [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], ainda se encontra em [[lexico:d:descartes|Descartes]]. Este limita o sentido de «[[lexico:a:affectio|affectio]]» de maneira subjetiva e arbitrária, quando diz que é caracterizada pelo fato de se estimar o objeto da «affectio», menos do que a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], ao passo que, na [[lexico:a:amizade|amizade]], a estima é igual, e na devoção ela é [[lexico:s:superior|superior]]. Ademais, «affectus» conservou até ao séc. XVIII um sentido muito amplo, que inclui todas as modificações das quais um ser é suscetível até as intelectuais. Em [[lexico:s:spinoza|Spinoza]], «affectus» toma o sentido de [[lexico:s:sentimento|sentimento]] puramente [[lexico:r:racional|racional]], e este uso foi amplamente adotado por autores ingleses (moralistas), posteriores a ele. «Passio» (inglês: passion), ainda em Descartes, [[lexico:i:identico|idêntico]] com «affectus» opõe-se, então, progressivamente, à palavra inglesa «Affection». [[lexico:p:problematica|Problemática]]. É [[lexico:q:questao|questão]] controvertida se há, na [[lexico:v:vida|vida]] afetiva, uma forma elementar de afeto, uma «afeição» da [[lexico:a:alma|alma]] em sentido [[lexico:g:geral|geral]], que fundamente e preceda a todos os outros afetos mais especificamente determinados. Encontramos em Descartes uma [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] da «[[lexico:a:admiracao|admiração]]» como primeiro de todos os afetos (prima omnium passionum) (vide: admiração). Fica, porém, uma questão aberta, se a «admiração», na acepção de Descartes, é só a forma mais primitiva dos afetos, que em estados posteriores cede [[lexico:l:lugar|lugar]] a outros afetos secundários, ou se a própria admiração é suscetível de determinações ulteriores, que a transformem em afetos ou emoções mais complexas. Parece apontar na direção da segunda [[lexico:h:hipotese|hipótese]] a [[lexico:o:observacao|observação]] de Descartes, de que a admiração nos vem antes de percebermos, se o objeto que admiramos nos convém ou não. Afirmam muitos autores, principalmente falando da «[[lexico:m:memoria|memória]] afetiva», que, perante certas representações, sentimos uma afeição [[lexico:e:emocional|emocional]] (na literatura muitas vezes chamada de «[[lexico:e:emocao|emoção]]» mas sem o sabor de [[lexico:i:intensidade|intensidade]] e veemência), que não contém [[lexico:n:nada|nada]] de prazer ou de dor, e que seria o [[lexico:e:estado|Estado]] afetivo mais geral ou mais elementar. [[lexico:b:bergson|Bergson]] dá uma interpretação [[lexico:g:genetica|genética]] da vida afetiva, que parte da sua [[lexico:t:teoria|teoria]] peculiar da [[lexico:a:acao|ação]] mútua, que exercem o nosso [[lexico:c:corpo|corpo]] e as coisas exteriores, e que faz do nosso corpo (melhor da nossa [[lexico:c:corporeidade|corporeidade]] como veículo do [[lexico:e:espirito|espírito]]) um centro de [[lexico:r:reflexao|reflexão]], que possibilita a [[lexico:p:percepcao|percepção]], mas, também, um [[lexico:o:orgao|órgão]] de [[lexico:a:absorcao|absorção]] das influências ativas que lhe vêm de fora, absorção que se processa não sem [[lexico:l:luta|luta]], e que é a [[lexico:f:fonte|fonte]] de todo afeto. As consequências imediatas dessa teoria monista têm bons antecedentes no [[lexico:n:neoplatonismo|neoplatonismo]], como nos clássicos, porém não só são incompatíveis com outras teorias psicológicas, como, também, são especialmente combatidas e rejeitadas, em [[lexico:p:principio|princípio]], como de [[lexico:o:origem|origem]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]] pelos que defendem um [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:m:metodo|método]] no tratamento de assuntos psicológicos, como são, em primeiro lugar, os representantes da [[lexico:e:escola|escola]] fenomenológica. [[lexico:h:husserl|Husserl]] distingue claramente entre sentimentos que se dirigem a algum objeto e os meros estados afetivos sensíveis, introduzindo, assim, decididamente, uma cunha na vida afetiva, concebida como um todo. Uma nova contribuição ao [[lexico:p:problema|problema]] traz [[lexico:s:scheler|Scheler]], quando insiste em que também a região emocional da alma humana não carece de «[[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]]» que aliás só se atribuía ao [[lexico:i:intelecto|intelecto]]. (Vide «intencionalidade»). Segundo ele, a camada mais elevada da intencionalidade emocional são os atos de amor e de ódio. Estes nada têm em comum com os afetos de cólera, furor, júbilo, etc, nos quais não se oferece qualquer conteúdo [[lexico:p:proprio|próprio]] e que são análogos aos estados sensuais do sentimento. [[lexico:a:alem|Além]] de amor e ódio, Scheler atribui também àquelas tendências dirigidas contra objetivos que constituem valores (vide [[lexico:v:valor|valor]]) um caráter intencional, porém indireto. Consequentemente, Scheler rejeita o preconceito filosófico de que a vida emocional não podia [[lexico:a:apreender|apreender]] qualquer conteúdo próprio e heterogêneo, o que quer dizer: ser intencional, e combate todos os seus representantes, isto é, a quase [[lexico:t:totalidade|totalidade]] dos filósofos, e especialmente a [[lexico:k:kant|Kant]], em cuja acepção tudo o que não é [[lexico:r:razao|razão]] é caótico, o sentimento, o [[lexico:i:instinto|instinto]] e até o amor, e só pode ser ordenado pela razão criadora. É notável, porém, que Scheler não recai no [[lexico:e:extremo|extremo]] oposto, pois insiste sempre na existência de uma camada emocional no [[lexico:h:homem|homem]], que fica absolutamente inacessível a qualquer intencionalidade, isto é, principalmente a [[lexico:f:forca|força]] intensa, mas escura, da [[lexico:v:vontade|vontade]]. Em face de toda esta problemática, visto ser [[lexico:i:impossivel|impossível]] resolvê-la, convém compreendê-la em sua complexidade e, para isso, serve um [[lexico:e:exemplo|exemplo]] [[lexico:d:dado|dado]] por Scheler, com o qual voltamos ao mesmo tempo à nossa definição inicialmente dada, onde afirma que «cada afeto está ligado a uma tendência, sem, entretanto, confundir-se com ela». Torna-se, porém, quase difícil manter esta [[lexico:a:afirmacao|afirmação]], ao considerar que é segundo Scheler, perfeitamente [[lexico:p:possivel|possível]] tender a um certo [[lexico:o:objetivo|objetivo]], com o qual se dá um afeto prazeroso, não para alcançar esse objetivo, mas, unicamente, para desfrutar o prazer que está ligado à execução daquele [[lexico:i:impulso|impulso]]. O impulso sexual e o prazer paralelo dão exemplos, não só no homem, como já em certos vertebrados superiores, dessa quase confusão prática de afeto e tendência.