===== AFAZER ===== Talvez [[lexico:n:nao|não]] haja [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:h:humano|humano]] que, pelo menos uma vez na [[lexico:v:vida|vida]], não se tenha [[lexico:s:sentido|sentido]] exilado no [[lexico:m:mundo|mundo]] a que se afeiçoou e que se lhe afeiçoou, no mundo em que se entranhou e que se lhe entranhou. Súbito [[lexico:a:arrebatamento|arrebatamento]] de estranheza fará que de si para si pense e diga: «Este mundo não é o meu.» Acertado é que o diga e pense, quando já não o reconhece como [[lexico:o:obra|obra]] sua. E daí, [[lexico:r:recusa|recusa]] após recusa, sempre a mesma Recusa. Outrora, a recusa de um mundo feito por outros que ainda não eram ele, [[lexico:a:agora|agora]], recusa do mundo feito pelo [[lexico:o:outro|outro]] que ele já não é. Outro mundo é o «afazer» de toda a hora de outrora e agora. «Mundo» será sempre afazer dos homens, que [[lexico:h:homem|homem]] nenhum jamais achará definitivamente feito? Ou não seria o «mundo a fazer» mera [[lexico:i:ilusao|ilusão]] de um triunfo sobre o Exílio? Ou a versão humana de um [[lexico:p:processo|processo]] cuja [[lexico:n:natureza|natureza]], até hoje, se furta a [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:e:entendimento|entendimento]]? Na [[lexico:v:verdade|verdade]], se homem e mundo são como as duas coordenadas de um [[lexico:p:projeto|projeto]] mutante, o homem só se sente invadido de estranheza em [[lexico:r:relacao|relação]] ao mundo que dele fora, quando já vive em outro que dele começa a ser, porque ele mesmo em outro se veio tornando. Mas, assim, o homem só faz o virtualmente feito, e a iniciativa da [[lexico:a:acao|ação]] é a de [[lexico:q:quem|quem]] ou do que, no mesmo gesto, faz o «mundo deste homem» e o «homem deste mundo». Que será, então, do afazer humano e só humano? [[lexico:p:puro|puro]] [[lexico:j:jogo|jogo]] com uma divindade que arteiramente infunde no homem a [[lexico:c:conviccao|convicção]] ludibriante de que o ganhou ele, no [[lexico:m:momento|momento]] em que o perdeu. Não quero dizer, evidentemente, que o homem [[lexico:n:nada|nada]] faz, mas só que o que faz, fá-lo em [[lexico:o:obediencia|obediência]] a um [[lexico:p:plano|plano]] que compromete a obra com o obreiro e o obreiro com a obra. E tão profundamente os compromete, que, ao [[lexico:f:fim|fim]] e ao cabo, ficamos sem [[lexico:s:saber|saber]] qual a [[lexico:p:parte|parte]] do fazer que coube ao homem e qual a que coube ao mundo. Sobretudo, há que nos resignar à [[lexico:s:situacao|situação]] paradoxal de [[lexico:t:ter|ter]] de procurar o ser deste homem no ser deste mundo, e o ser deste mundo no [[lexico:g:grau|grau]] de [[lexico:h:humanidade|humanidade]] deste homem, e isto, enquanto não lhe sobrevenha o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] de estranheza que prenuncia a [[lexico:m:mutacao|mutação]] do projeto — do projeto, não o esqueçamos, que coordena «homem» e «mundo». [EudoroMito:29-30]