===== AEVUM ===== Tornou-se corrente na [[lexico:f:filosofia-da-cultura:start|filosofia da cultura]] estabelecer distinções radicais entre o [[lexico:t:tempo:start|tempo]] [[lexico:h:historico:start|histórico]] e o Tempo [[lexico:m:mitico:start|mítico]], entre o Tempo cósmico e o Tempo [[lexico:h:humano:start|humano]] [NOTA: Além da literatura alemã a este respeito, vide a obra monumental de J. Evola, Rivolta Contro il Mondo Moderno, Fratelli Bocca, 2.a ed., 1951.]. Em outra linha, a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] contemporânea, principalmente a partir de [[lexico:k:kierkegaard:start|Kierkegaard]], explicita o tempo do Cristianismo como um tempo essencialmente angustioso, porque um tempo em que nos salvamos e nos perdemos. A [[lexico:e:existencia:start|existência]] posta como [[lexico:d:drama:start|drama]] é a existência posta pelo tempo cristão. O tempo cristão é dramático, por [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] ao tempo antigo, que é [[lexico:t:tragico:start|trágico]]. O tempo assume no Cristianismo um [[lexico:s:significado:start|significado]] [[lexico:c:capital:start|capital]], porque no tempo se processa a [[lexico:e:encarnacao:start|Encarnação]] e a [[lexico:r:redencao:start|Redenção]]; o tempo é a [[lexico:d:duracao:start|duração]] tensa, porque nele reside a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] e portanto a [[lexico:e:escolha:start|escolha]] suprema na [[lexico:o:ordem:start|ordem]] dos fins, a escolha entre o [[lexico:b:bem:start|Bem]] e o [[lexico:m:mal:start|mal]]. Este é um tempo desconhecido do [[lexico:h:homem:start|homem]] antigo. Os gregos, exatamente por fluírem no tempo trágico, que é o tempo [[lexico:d:divino:start|divino]], [[lexico:n:nao:start|não]] punham diferenças essenciais entre a [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]] e o Tempo, tanto que a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] [[lexico:a:aion:start|aion]] não significa apenas Aeternitas, mas também Aevum. O Aion como significando Aevum e Aeternitas é completamente estranho ao tempo da [[lexico:s:salvacao:start|salvação]]. A Eternidade não foi para o homem [[lexico:c:classico:start|clássico]] o irremediável selado pela [[lexico:m:morte:start|morte]]. Entre o tempo antigo e o tempo cristão medeia a [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] que separa o tempo [[lexico:u:universal:start|universal]] e o tempo individual, o tempo supra-humano e o tempo humano, o tempo metafísico e o tempo como [[lexico:v:vivencia:start|vivência]]. Em [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] ainda, se prolonga esta [[lexico:v:visao:start|visão]] antiga do Tempo. Força-se uma [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] cristã do tempo em Plotino, tomando-o como duração individual, como biografia e drama interior. É uma interpretação artificial, porque o tempo em Plotino é o tempo dissociado da [[lexico:a:alma:start|alma]] e não o tempo da Encarnação e da Redenção. O tempo de Plotino era [[lexico:m:movimento:start|movimento]], saída da imobilidade, quebra da [[lexico:u:unidade:start|unidade]]; era posto em [[lexico:r:referencia:start|referência]] com o [[lexico:e:eterno:start|eterno]], do qual fluía por degradação, e com [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:l:logos:start|Logos]] spermatikos, que depois assumiu [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] tão diferente nos platônicos cristãos. Os seres temporais saíam como de um germe imóvel, desenvolviam-se evoluindo, dividiam-se de sua unidade interna e perdiam sua [[lexico:f:forca:start|força]] pelo seu [[lexico:p:progresso:start|progresso]]. Quanto mais distante da Unidade originária, mais pobre o [[lexico:s:ser:start|ser]], de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que os seres temporais pertencem à [[lexico:e:esfera:start|esfera]] das realidades mais ínfimas. O ser imerso no tempo está distante de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] e de toda [[lexico:r:realidade:start|realidade]] verdadeira. O tempo se aproxima do [[lexico:n:nada:start|nada]]; é a [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] engendrada pela Alma; é alongamento progressivo cia [[lexico:v:vida:start|vida]] da Alma, em que a Alma se multiplica de si mesma, se reproduz de si mesma, esvaindo-se em muitas vidas diferentes; se há tempos diferentes, é porque há vidas diferentes na Alma dissociada; o tempo é a diversidade das vidas da Alma, é multiplicação e perdição e perdição no [[lexico:c:caminho:start|caminho]] da [[lexico:m:materia:start|matéria]], que é o Mal [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. Mas a Eternidade é o repouso, a imobilidade, a unidade, a [[lexico:i:identidade:start|identidade]], a infinitude; e por isso, como o [[lexico:u:uno:start|uno]] ignora o [[lexico:m:multiplo:start|múltiplo]], a Eternidade não conhece o tempo, já que o tempo é [[lexico:e:evolucao:start|evolução]], movimento e [[lexico:f:fuga:start|fuga]]. Ao contrário do [[lexico:i:infinito:start|infinito]], o qual é um [[lexico:t:todo:start|todo]], o tempo é um progresso incessante para o Infinito, que se dá [[lexico:p:parte:start|parte]] por parte; o tempo não é a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]], que está toda presente a si mesma (e que por isso é Totalidade), mas um todo que vem parte por parte, que se desenrola, que está sempre vindo e sempre por vir. Esta [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]] de Plotino, como duração e como [[lexico:c:criacao:start|criação]] da Alma, que se perde na sua marcha para o múltiplo, é o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] final do tempo [[lexico:g:grego:start|grego]], pode ser até um [[lexico:d:desvio:start|desvio]] da visão grega do tempo, mas não tem nada de comum com o [[lexico:t:tempo-angustioso:start|tempo angustioso]] do Cristianismo. O tempo ainda é em Plotino um tempo supra-hurnano, que pende da [[lexico:t:tragedia:start|tragédia]] divina. O drama dos indivíduos não é dos indivíduos, mas do Uno, que se fragmenta na [[lexico:i:inteligencia:start|Inteligência]], da Inteligência, que se fragmenta na Alma, da Alma, que se aniquila na matéria. Como na tragédia grega, o [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] não é o [[lexico:p:protagonista:start|protagonista]] do drama, mas a máscara que representa os papéis da tragédia. O tempo de Plotino não é premido pela [[lexico:a:angustia:start|angústia]] da salvação do indivíduo como tal. Não existe a perdição concreta, no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] do [[lexico:i:inferno:start|Inferno]] cristão (que também não se parece com o [[lexico:h:hades:start|Hades]] antigo), porque a perdição é o nada. Não existe a salvação eterna, que se assimila ao Uno e não ao indivíduo. Salvar-se é deixar de ser indivíduo, porque o indivíduo se aproxima do mal, que é a matéria. A [[lexico:h:historia:start|história]] não cumpre o desígnio divino, porque ela é o não-desígnio; não é a façanha da [[lexico:l:luta:start|luta]] pela liberdade, como poderia [[lexico:p:pensar:start|pensar]] algum [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] [[lexico:a:atual:start|atual]], mas o caminho do [[lexico:e:erro:start|erro]], uma não-realidade; a história é negativa, porque o tempo é a [[lexico:n:negacao:start|negação]] do Uno. O tempo é [[lexico:a:alem:start|além]] disso ilusório, porque aparece ao fragmento individual, mas não tem realidade no Um. E como o indivíduo só tem de [[lexico:r:real:start|real]] o que não tem de fragmentado, ele só tem de real o que tem de Eterno e não o que tem de [[lexico:t:temporal:start|temporal]]. O [[lexico:m:mundo:start|mundo]] é o [[lexico:r:reino:start|reino]] platônico da sombra e do mal; é caverna e escuridão, é [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] dos sentidos, é multiplicação inútil. A nostalgia vem desta parcela de Eternidade que trazemos para o sepulcro do [[lexico:c:corpo:start|corpo]]. [NOTA: Na falta de outra, usamos impropriamente esta palavra indivíduo; impropriamente porque indivíduo significa indivisível, e em Plotino, o que chamamos indivíduo já é o dividido, o dissociado.] Seria fácil encontrar em [[lexico:s:santo:start|santo]] [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] todos os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] do plotinismo. Mas o tempo augustiniano tem um sentido inteiramente diverso. Santo Agostinho precisamente é um dos fundadores da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] da [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] e do tempo angustioso, e nem por menos está tão vivo na filosofia contemporânea. No tempo angustioso, o Uno de Plotino se torna um [[lexico:d:deus:start|Deus]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]], um Deus Ativo que cria o mundo, inclusive a matéria; os [[lexico:q:quatro-elementos:start|quatro elementos]] são ainda indissolúveis em Santo Agostinho, mas são [[lexico:o:obra:start|obra]] da criação. A matéria deixa de ser o mal, porque todos os seres são bons enquanto seres; o mal não é a matéria, mas a deficiência, a [[lexico:f:falta:start|falta]], a [[lexico:p:privacao:start|privação]]; o corpo já não é a sepultura da alma, e sim ao contrário, é o [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] da [[lexico:b:beleza:start|beleza]] divina. O homem é ainda em Agostinho uma alma que se serve de um corpo. Mas o corpo deixa de ser o [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]] da morte, não só porque Deus criou o corpo, como ainda porque os corpos ressuscitarão no dia do [[lexico:j:juizo:start|Juízo]]. Está posta em Agostinho a [[lexico:p:premissa:start|premissa]] depois desenvolvida pela [[lexico:e:escolastica:start|Escolástica]] de que o homem é unidade [[lexico:s:substancial:start|substancial]] de alma e corpo e de que portanto o corpo é parte essencial do homem. A dignificação da matéria, que saiu como um bem das [[lexico:m:maos:start|mãos]] de Deus, a [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] do corpo e da [[lexico:c:condicao-humana:start|condição humana]], decaída pelo [[lexico:p:pecado:start|pecado]], mas que conserva ainda os vestígios da [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] perdida, todos estes elementos puderam ser chamados a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] do [[lexico:o:otimismo:start|otimismo]] cristão. Mas este otimismo (que não parece muito claro na [[lexico:p:patristica:start|Patrística]] grega) não só não evitou, como ainda sublinhou a angústia do tempo. A angústia cresce se [[lexico:e:eu:start|eu]] sou, não só o meu [[lexico:e:espirito:start|espírito]], mas também o meu corpo, do qual estou condenado a separar-me no desenlace da morte. A [[lexico:c:condicao:start|condição]] do morto, na Igreja, é a condição das almas separadas. Além disso, se o mundo foi criado do Nada, o mundo, enquanto mundo, está posto entre dois não-tempos ou entre dois nadas. Ou então, o mundo se resolve por [[lexico:f:fim:start|fim]] no repouso eterno do Absoluto, como acontece em Máximo, o Confessor, e em [[lexico:h:hegel:start|Hegel]]. O mundo havia sido outra cousa para os antigos; era um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de referência estável, fora do tempo, enquanto [[lexico:p:principio:start|princípio]] maternal co-eterno, e enquanto receptáculo do [[lexico:s:sagrado:start|sagrado]]. Desde os [[lexico:p:pre-socraticos:start|pré-socráticos]] até Crisipo o Mundo teve a amplitude de uma conexão entre a [[lexico:t:terra:start|Terra]] e o [[lexico:c:ceu:start|Céu]], os [[lexico:m:mortais:start|mortais]] e os [[lexico:d:deuses:start|deuses]] . Mas, a [[lexico:t:tese:start|tese]] cristã tal como aparece em Santo Agostinho, é que o tempo foi criado com a matéria e o mundo; são [[lexico:s:sinonimos:start|sinônimos]] temporal e [[lexico:m:mundano:start|mundano]]; de maneira que o Cristianismo põe realmente a tese da angústia [[lexico:e:existencial:start|existencial]] (inclusive a angústia dos existencialistas que se dizem ateus), porque segundo o Cristianismo, estamos no mundo, não como num [[lexico:l:lugar:start|lugar]], mas como num tempo, num [[lexico:p:processo:start|processo]], numa [[lexico:t:tensao:start|tensão]]; tal é em [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] o sentido do [[lexico:e:estar-no-mundo:start|estar no mundo]]. O mundo deixou de ser no Cristianismo o ponto estável de referência; e por isso é que, na Idade Média, a palavra mundus, por oposição ao seu sentido antigo, se tornou sinônimo de sempre em movimento. Quer dizer que não havia [[lexico:c:compatibilidade:start|compatibilidade]] entre o Cristianismo e o sentido antigo de Centrum, o sentido de Mundus, tal como este sentido aparece na [[lexico:r:religiao:start|Religião]] grega e romana e mais remotamente na Religião etrusca. O Mundus, com sua [[lexico:s:significacao:start|significação]] clássica, não podia [[lexico:s:subsistir:start|subsistir]], se o tempo já não era um desenrolar-se da tragédia dos deuses ou da Alma. Não há maior erro do que aplicar à [[lexico:c:cultura:start|cultura]] antiga as noções que se originaram do Cristianismo; o tempo [[lexico:a:arcaico:start|arcaico]], o tempo de [[lexico:h:heraclito:start|Heráclito]], não era tempo dramático, mas tempo catastrófico. O tempo se torna dramático quando se interioriza, quando se subjetiva e quando o indivíduo, portador do tempo, se vê como um [[lexico:c:contingente:start|contingente]], posto na [[lexico:c:contingencia:start|contingência]] universal do mundo. Ele se move no movente; ele é um [[lexico:a:abismo:start|abismo]] que se abisma. Porque o tempo cristão já não é um dissociar-se da Alma universal, mas um desenrolar-se do meu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] drama. A Eternidade antiga não inquietava o homem, no sentido [[lexico:r:religioso:start|religioso]] do [[lexico:t:termo:start|termo]], tanto quanto não nos inquieta o tempo infinito que decorreu antes do nosso nascimento. O que nos inquieta é o tempo ou a Eternidade que vem depois da nossa morte; a morte é inquietante, porque nos espera no [[lexico:f:futuro:start|futuro]], e o futuro cristão é o reino do [[lexico:p:possivel:start|possível]]: no futuro o cristão pode salvar-se; no futuro pode perder-se; mas, como disse tão bem Kierkegaard, no futuro o cristão só não pode desfazer-se de si mesmo. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}