===== ACIMA-ABAIXO ===== gr. [[lexico:e:ekei:start|ekei]]: lá, [[lexico:a:alem:start|além]], acima Descendo, do Grande Em Cima para o Grande Em Baixo, a divindade se desveste de todas as vestimentas, de todas as insígnias do que nela é [[lexico:d:divino:start|divino]]. Mas seu [[lexico:c:corpo:start|corpo]] nu ainda se mostrava vestido aos olhos agudíssimas da Rainha dos Infernos: faltava despojá-la do riquíssimo paramento da [[lexico:v:vida:start|vida]]. Por aí, a grande deusa se identificaria com o mais comum dos seres humanos. Por isso ordenou que sobre ela esparzissem as águas da [[lexico:m:morte:start|morte]]. Pouco importa repetir que [[lexico:n:nada:start|nada]] há mais encoberto e envolvido do que a nudez de um morto: que o envolve e encobre é a vida ausente, porque [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] é a agravada [[lexico:p:presenca:start|presença]] do que [[lexico:n:nao:start|não]] permite que um morto seja nada. Um morto põe-nos em presença da Vida; um vivo, só diante da vida dele. Porém, o que mais importa é notar que os homens sobem o mesmo [[lexico:c:caminho:start|caminho]] que os [[lexico:d:deuses:start|deuses]] descem. Só com esta [[lexico:d:diferenca:start|diferença]]: de Cima para Baixo, despem-se os deuses; de Baixo para Cima, despem-se os homens. A [[lexico:m:meio:start|meio]] caminho, deuses e homens se encontram, uns mais ou menos despidos, outros, mais ou menos vestidos, todos mais ou menos encobertos e envolvidos, todos mais ou menos desencobertos e desenvolvidos. A meio do caminho, homens se reconhecem nos deuses e os deuses, nos homens. A meio do caminho deuses saúdam os homens, como seus iguais. Os deuses, descendo, iniciam-se no [[lexico:h:homem:start|homem]]; os homens, subindo, iniciam-se em [[lexico:d:deus:start|Deus]]. Mas foram os deuses que acenaram para o caminho, como «acenantes mensageiros da Divindade» que, sorrindo, nuns e noutros, põem seu olhar complacente. Essa era a [[lexico:m:mensagem:start|mensagem]]. Ou não só? Não só essa. Se passei a última porta, aquela que por sua estreiteza não permite senão que «[[lexico:e:eu:start|eu]]» passe, despojado de tudo quanto «me» pertencia, de tudo quanto do «mim mesmo» era e que «eu» não sou, porque diante da Divindade cheguei, como sendo o que sou, para baixo ficaram os deuses. Cada um deles fora jogado na indecisão de serem ou terem seu [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. Se morrem para vida do mundo, são seu mundo; se vivem, têm o mundo em que vivem. Mas eu sou eu só, pela Excedência que imita a [[lexico:e:excessividade:start|excessividade]] incontida, que não deixou que eu me detivesse no caminho, em qualquer dos [[lexico:m:mundos:start|mundos]] que algum deus seja ou tenha. Nisto, um homem pode [[lexico:s:superar:start|superar]] todos os deuses. [EudoroMito:65] Uma antiga [[lexico:a:anedota:start|anedota]] conta que depois da morte de [[lexico:p:platao:start|Platão]] foram encontradas entre suas notas variações diversas da passagem inicial da [[lexico:r:republica:start|República]]. Isso soa estranho, pois [[lexico:e:esse:start|esse]] início não parece abrigar nada de filosoficamente penetrante, e a versão que Platão finalmente escolheu é: “([[lexico:s:socrates:start|Sócrates]]:) Ontem desci com Glauco, [[lexico:f:filho:start|filho]] de Aríston, ao Pireu, a [[lexico:f:fim:start|fim]] de orar à deusa e também para [[lexico:v:ver:start|ver]] como celebrariam a festa lá, visto que o faziam pela primeira vez. A pompa dos habitantes do [[lexico:l:lugar:start|lugar]] me pareceu bela, ainda que não menos excelente fosse a que os trácios conduziam. Após termos feito nossas preces e visto a cerimônia, subimos de volta à [[lexico:c:cidade:start|cidade]]” (327a). Platão, cuidadosamente, dava o maior [[lexico:v:valor:start|valor]] à [[lexico:f:forma:start|forma]] externa de seus escritos filosóficos, e esse episódio, transmitido pelos doxógrafos de [[lexico:m:modo:start|modo]] nem um pouco [[lexico:f:fortuito:start|fortuito]], espelha isso: a [[lexico:f:frase:start|frase]] inicial da República é uma [[lexico:a:antecipacao:start|antecipação]] de [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:m:movimento:start|movimento]] interno do [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] de SUBIDA e DESCIDA na narrativa-moldura; ela aponta cataforicamente a subida e a descida na [[lexico:a:alegoria-da-caverna:start|alegoria da caverna]]; os conteúdos simbólicos de descida ao mundo inferior (pela deusa trácia, que era uma divindade do mundo inferior), que aparecem, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], na [[lexico:a:alegoria:start|alegoria]] da caverna (514a-518b), no final do [[lexico:e:escrito:start|escrito]] na narrativa sobre o [[lexico:h:hades:start|Hades]] de Er (614a-621b), na cidade como [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] humana [[lexico:p:politica:start|política]] na altura visível do marco terrestre, que deve primeiro [[lexico:s:ser:start|ser]] escalado, e como [[lexico:p:ponto:start|ponto]] culminante do [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] conversacional que lentamente se eleva no diálogo — esses conteúdos interconectam-se aqui, no nível da [[lexico:a:acao:start|ação]] introdutória, com os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] em que percebemos que Sócrates é representado por Platão como aquele que - semelhantemente ao [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] da alegoria da caverna - desce da altura iluminada a fim de passar algum [[lexico:t:tempo:start|tempo]] embaixo e, aos os que aí vivem e se alegram em contemplar um [[lexico:j:jogo:start|jogo]] com archotes (328ab), instruir sobre a verdadeira [[lexico:l:luz:start|luz]] do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do [[lexico:p:plano:start|plano]] [[lexico:s:superior:start|superior]] e levá-los consigo para lá. [LéxicoPlatão:12-13] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}