===== AÇÃO ===== ação, [[lexico:p:poiein:start|poiein]], [[lexico:p:praxis:start|praxis]], [[lexico:e:ergon:start|ergon]] [[lexico:d:distincao:start|distinção]] do agir e fazer, ergon 1-2, poiein; poderes ativos associados com o [[lexico:l:logos:start|Logos]] pelos estoicos, gênesis 16; como [[lexico:p:principio:start|princípio]] «material», [[lexico:h:hyle:start|hyle]] 7; [[lexico:v:virtude:start|virtude]] como [[lexico:m:meio:start|meio]] de, [[lexico:m:meson:start|meson]]; em [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] uma degeneração da [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]], [[lexico:n:nous:start|noûs]] 19, [[lexico:p:physis:start|physis]] 5; [[lexico:a:atividade:start|atividade]] e [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] em [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], [[lexico:p:pathos:start|pathos]] 9; como assunto principal da [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]], praxis, [[lexico:p:proairesis:start|proairesis]] Encontramos, de uma ou de outra [[lexico:f:forma:start|forma]], a ação ou atividade em [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:e:ente:start|ente]] por nós observado. A [[lexico:e:essencia:start|essência]] da ação parece consistir, à primeira vista, em que [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] é produzida, chamada a [[lexico:e:existir:start|existir]]. Examinando mais detidamente a [[lexico:q:questao:start|questão]], apuramos dois tipos de ação. O primeiro é a ação [[lexico:t:transeunte:start|transeunte]], que passa para o [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, ou [[lexico:e:exterior:start|exterior]] (lat. actio), pela qual o [[lexico:a:agente:start|agente]] opera sobre outro ente (o [[lexico:a:artista:start|artista]] desbasta, p. ex., o mármore para o converter em [[lexico:e:estatua:start|estátua]]). O segundo é a ação-imanente, que permanece dentro, ou interior (lat.: operatio), pela qual o agente se desdobra a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] (p. ex., o crescimento da planta). Com frequência ambos os tipos se entrelaçam mutuamente, sobretudo quando a ação exterior se radica na interior (p. ex., o [[lexico:p:pensar:start|pensar]] e o querer do escultor, que animam cada golpe do cinzel). Como a ação procede do ente, seu [[lexico:g:grau:start|grau]] de [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] corresponde ao grau [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]] deste; é o que diz o [[lexico:a:axioma:start|axioma]]: "[[lexico:a:agere-sequitur-esse:start|agere sequitur esse]]" (ao [[lexico:s:ser:start|ser]] segue-se o operar). De [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:g:geral:start|geral]], quanto mais elevado um ente é, tanto mais interior se mostra sua ação [[lexico:c:caracteristica:start|característica]]. O ser in-orgânico ou sem-vida desvanece-se inteiramente no exterior, pelo que só pode atuar sobre outras [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. Com o [[lexico:v:vegetal:start|vegetal]] começa o ente que se mantém-em-si-mesmo e, com ele, a ação interna ou intrínseca, que se identifica com a [[lexico:v:vida:start|vida]]. Todavia a planta perde-se ainda totalmente no [[lexico:c:corpo:start|corpo]], cuja [[lexico:e:exterioridade:start|exterioridade]] é superada, em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], pela [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] [[lexico:s:sensorial:start|sensorial]] (ainda ligada ao corpo e por isso muito embotada), e, principalmente, pela vida espiritual, intrinsecamente [[lexico:i:independente:start|independente]] do corpo. A ação espiritual abarca todo o [[lexico:r:reino:start|reino]] do ser e eleva-se até [[lexico:d:deus:start|Deus]], ao passo que as espécies inferiores de ação [[lexico:n:nao:start|não]] ultrapassam um âmbito limitado do corpóreo. A [[lexico:d:descricao:start|descrição]] anterior propôs-se ser unicamente provisória. O produzir (causar) ou fazer passar da [[lexico:p:potencia:start|potência]] ao [[lexico:a:ato:start|ato]] pertence apenas à ação criatural e de maneira nenhuma constitui a genuína essência da ação. Esta consiste em que o ente se "efetua" a si mesmo e desse modo existe em sua plena [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. Só em seu pensar e querer possui o [[lexico:h:homem:start|homem]] a realidade de si mesmo integralmente desdobrada, ao passo que, sem essa atividade, dormita ainda. A produção só acresce à efetuação, quando esta não é dada com a [[lexico:s:substancia:start|substância]] de um ¦ente, mas deve ser produzida como ulterior [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] acidental. Em ¦contraste com todas as criaturas, situa-se a auto-possessão pensante e querente de Deus como efetuação pura sem qualquer [[lexico:e:especie:start|espécie]] de produção e, portanto, como "[[lexico:a:ato-puro:start|ato puro]]" (actus purus) nem a ação extrínseca de Deus (a [[lexico:c:criacao:start|criação]]) significa produção nele [[lexico:p:proprio:start|próprio]]. O [[lexico:s:sentido:start|sentido]] da ação é justamente elevar o ente à [[lexico:p:posse:start|posse]] completa ¦de seu ser e, por [[lexico:f:fim:start|fim]], do Ser [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. Por isso a ação só pode coincidir com a substância daquele que é o próprio Ser absoluto; pelo contrário, no ente [[lexico:f:finito:start|finito]], a ação deve ser determinação acidental, pela qual este se esforça em se possuir a si mesmo e em aproximar-se do Ser absoluto: "Omnia appetunt Deum", todos os três aspiram a Deus. Em seu âmago, a ação faz [[lexico:p:parte:start|parte]] dos [[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]]. Não se podem certamente dissolver todas as coisas em ação pura, suspensa no [[lexico:a:ar:start|ar]], como faz o [[lexico:d:dinamismo:start|dinamismo]]. Todavia a essência do ser aperfeiçoa-se na ação, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que o ser só em sua efetuação é integralmente ele mesmo, é plenamente ser. Apesar disso, a ação não aparece como [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]], mas sim [[lexico:o:oculto:start|oculto]] no [[lexico:v:vero:start|vero]] e no [[lexico:b:bom:start|Bom]] ([[lexico:v:verdade:start|verdade]] e [[lexico:v:valor:start|valor]]), os quais representam a conexão [[lexico:e:essencial:start|essencial]] do ser com o pensar e o querer, e, por conseguinte, com a ação. — Lotz. (gr. praxis; lat. Actio; in. Action; fr. Action; al. Tat, Handlung; it. Azioné). 1. [[lexico:t:termo:start|termo]] de [[lexico:s:significado:start|significado]] generalíssimo que denota qualquer [[lexico:o:operacao:start|operação]], considerada sob o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] do termo a partir do qual a operação tem início ou iniciativa. Nesse significado, a [[lexico:e:extensao:start|extensão]] do termo é coberta pela [[lexico:c:categoria:start|categoria]] aristotélica do fazer (poiein), cujo oposto é a categoria da [[lexico:p:paixao:start|paixão]] ou da [[lexico:a:afeicao:start|afeição]]. Fala-se, assim, da ação do ácido sobre os metais ou do "princípio de ação e de [[lexico:r:reacao:start|reação]]" ou da ação do DDT sobre os insetos; ou então fala-se da ação livre ou voluntária ou responsável, isto é, própria do homem e qualificada por condições determinadas. Produzir, causar, agir, [[lexico:c:criar:start|criar]], destruir, iniciar, continuar, terminar, etc. são significados que inscrevem-se nesse significado genérico de ação. 2. Aristóteles foi o primeiro a tentar destacar desse significado genérico um significado específico pelo qual o termo pudesse referir-se somente às operações humanas. Assim, começou excluindo da extensão da [[lexico:p:palavra:start|palavra]] as operações que se realizam de modo, [[lexico:n:necessario:start|necessário]], isto é, de um modo que não pode Ser diferente do que é. Tais operações são [[lexico:o:objeto:start|objeto]] das ciências teoréticas, [[lexico:m:matematica:start|matemática]], [[lexico:f:fisica:start|física]] e [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] pura. Essas ciências referem-se a realidades, fatos ou eventos que não podem ser diferentes do que são. Fora delas está o domínio do [[lexico:p:possivel:start|possível]], isto é, do que pode ser de um modo ou de outro; mas nem todo o domínio do possível pertence à ação. Dele é preciso, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], distinguir o da produção, que é o domínio das artes e que tem [[lexico:c:carater:start|caráter]] próprio e [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] nos objetos produzidos (Et. Nic, VI, 3-4, 1.149 ss.). [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] distingue [[lexico:a:acao-transitiva:start|ação transitiva]] (transiens), que passa de [[lexico:q:quem:start|quem]] opera sobre a [[lexico:m:materia:start|matéria]] externa, como queimar, serrar, etc, e ação [[lexico:i:imanente:start|imanente]] (immanens), que permanece no próprio agente, como sentir, entender, querer (S. Th., II, I, q. 3, a 2; q. 111, a. 2). Mas a chamada ação transitiva [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é do que o fazer ou produzir, de que [[lexico:f:fala:start|fala]] Aristóteles (ibid., II, I, q. 57, a. 4). Nessas observações de Tomás de Aquino, assim como nas de Aristóteles, está presente a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] a reconhecer a superioridade da ação chamada imanente, que se consuma no interior do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] operante: ação que, de resto, outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] não é senão a atividade espiritual ou o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] ou a [[lexico:v:vida-contemplativa:start|vida contemplativa]]. Tomás de Aquino diz, com efeito, que só a ação imanente é "a perfeição e o ato do agente", enquanto a ação transitiva é a perfeição do termo que sofre a ação (ibid., II, I, q. 3, a 2). Por outro lado, Tomás de Aquino distingue, na ação voluntária, a [[lexico:a:acao-comandada:start|ação comandada]], que é a ordenada pela [[lexico:v:vontade:start|vontade]], p. ex., caminhar ou [[lexico:f:falar:start|falar]], e a [[lexico:a:acao-elicita:start|ação elícita]] da vontade, que é o próprio querer. O fim [[lexico:u:ultimo:start|último]] da ação não é o ato elícito da vontade, mas o comandado: já que o primeiro apetecível é o fim a que tende a vontade, não a própria vontade (ibid., II, I, q. 1, a. 1 ad 2a). Esses [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] permaneceram durante muito [[lexico:t:tempo:start|tempo]] inalterados e são pressupostos também pela chamada [[lexico:f:filosofia-da-acao:start|filosofia da ação]]; esta, se tende a exaltar a ação como um [[lexico:c:caminho:start|caminho]] para entrar em [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] mais direta com a realidade ou o Absoluto, ou na posse mais segura destes, não se preocupa muito em fornecer um [[lexico:e:esquema:start|esquema]] conceituai da ação que lhe determine as constantes. Essa tentativa, porém, foi feita por ciências particulares, em vista das suas exigências, especialmente pela [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]]. Assim, p. ex., Talcott Parsons determinou o esquema da ação. Esta implicaria: 1) um agente ou um ator; 2) um fim ou [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:f:futuro:start|futuro]] de coisas em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao qual se orienta o [[lexico:p:processo:start|processo]] da ação; 3) uma [[lexico:s:situacao:start|situação]] inicial que difira em um ou mais importantes aspectos do fim a que tende a ação; 4) certo [[lexico:c:complexo:start|complexo]] de [[lexico:r:relacoes:start|relações]] recíprocas entre os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] precedentes. "Dentro da [[lexico:a:area:start|área]] de controle do ator", diz Parsons, "os meios [[lexico:e:empregados:start|empregados]] não podem, em geral, ser considerados como escolhidos ao [[lexico:a:acaso:start|acaso]] ou dependentes exclusivamente das condições da ação, mas devem de algum modo [[lexico:e:estar:start|estar]] sujeitos à [[lexico:i:influencia:start|influência]] de determinado fator seletivo independente, cujo [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] é necessário à [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] do andamento [[lexico:c:concreto:start|concreto]] da ação". [[lexico:e:esse:start|esse]] fator é a [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] normativa que, embora possa ser diferentemente orientada, não [[lexico:f:falta:start|falta]] em nenhum [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de ação efetiva (The Structure of [[lexico:s:social:start|social]] Action, 1949, pp. 44-45). Esse esquema [[lexico:a:analitico:start|analítico]] proposto por Parsons sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] corresponde muito [[lexico:b:bem:start|Bem]] às exigências da [[lexico:a:analise:start|análise]] sociológica; mas pode ser assumido também em filosofia como base para a compreensão da ação nos vários campos de que a filosofia se ocupa, isto é, no [[lexico:c:campo:start|campo]] [[lexico:m:moral:start|moral]], jurídico, [[lexico:p:politico:start|político]], etc. Em linhas gerais, ação é o ato do agente e tende a algo determinado. A ação é uma [[lexico:m:mocao:start|moção]] (como o é também a paixão, passio). Ação e paixão (pathos, em [[lexico:g:grego:start|grego]]) são a mesma moção e não duas, mas que diferem entre si, não quanto ao sujeito em moção, mas quanto à [[lexico:r:razao:start|razão]] ([[lexico:r:ratio:start|ratio]]) de cada uma, pois são espécies do [[lexico:g:genero:start|gênero]] moção (motus). Vide moção. a) Operação de um ser, produzida por ele mesmo, e não por uma [[lexico:c:causa:start|causa]] exterior, pela qual algo é ou tende a ser modificado. Esta modificação pode referir-se tanto a um objeto [[lexico:e:externo:start|externo]] ao agente, como ao próprio agente. Neste sentido, opõe-se à paixão. “Tudo quanto se faz ou sucede de novo é geralmente [[lexico:c:chamado:start|chamado]] pelos filósofos uma paixão em relação ao sujeito ao qual sucede e uma Ação em relação a quem a realiza” ([[lexico:d:descartes:start|Descartes]]). Produzida por ele mesmo não implica que este ser seja um [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] e a operação voluntária, mas só tende a excluir uma “causa exterior” como agente da operação. Se definimos o ato como um “[[lexico:m:movimento:start|movimento]]” e a ação como uma operação, como tal tem exatamente um caráter mais concreto do que «movimento», como ação o tem em comparação a ato. «Operação» deve tomar-se no sentido mais lato, abrangendo de um lado operações puramente mentais e por isso individuais, enquanto por outro se aplica a processos físicos, cujos agentes carecem de vida anímica. b) Em sentido mais restrito designa a execução de uma volição. c) Na [[lexico:e:etica:start|Ética]], há certa dificuldade para determinar a operação de Deus e a operação do homem na realização de uma Ação moral. d) Nas ciências naturais, fala-se da ação de um ácido, da Ação do [[lexico:s:sol:start|sol]] sobre os organismos, etc. e) Não obstante, através da [[lexico:h:historia:start|história]] do termo ação, observa-se uma tendência progressiva à [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] do termo a «operações voluntárias», [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] reivindicado pela [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]]. Dois fatos, entretanto, trabalharam em direção contrária. Em primeiro lugar, o [[lexico:f:fato:start|fato]] de que a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de Ação evidentemente remonta a estados primitivos da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]], em que não se distinguiam as [[lexico:a:acoes:start|ações]] físicas, como os efeitos produzidos pelo sol ou pelo [[lexico:f:fogo:start|fogo]], de as ações que estavam, por experiência, ligadas a um [[lexico:e:esforco:start|esforço]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] e à determinação voluntária. A confusão destas duas espécies de ações, e de suas características peculiares, encontra a sua [[lexico:e:expressao:start|expressão]] significativa na [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] animista da [[lexico:n:natureza:start|natureza]]. Essa confusão «ideológica; entre as duas espécies de atividade foi desfeita pelo [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] posterior do pensamento, conservando-se, porém, até os nossos dias, a confusão «filológica» correspondente. Contudo, é mister mencionar também que o pensamento [[lexico:h:humano:start|humano]], embora certo da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de uma distinção clara entre «ações voluntárias» e «ações (processos, efeitos) físicas», não obstante, tratou sempre de estabelecer um [[lexico:n:nexo:start|nexo]] entre ambos os modos de operações, ou de reduzir um deles ao outro, ou ambos a uma base comum, que é a chave da sua natureza [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] impenetrável. A meio caminho desse elevado empreendimento, surge a questão de como é relacionada a ação com as outras grandes modalidades do ser. Aqui Aristóteles, na sua [[lexico:t:tabua:start|tábua]] de [[lexico:c:categorias:start|categorias]], coloca a ação (poiein) entre os acidentes, ao lado de paskein (passividade), com que se acha em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] e ao mesmo tempo em relação, porquanto o procedimento ativo de um ser pressupõe um sujeito que recebe esse movimento ou [[lexico:a:alteracao:start|alteração]] de modo [[lexico:p:passivo:start|passivo]]. (latim: actio-passio). Por mais heterogêneos que sejam o agente e o sujeito passivo, «actio» e «[[lexico:p:passio:start|passio]]» não deixam de ser uma e a mesma coisa, que só tem dois nomes diferentes, conforme é referido a um ou outro dos dois sujeitos, como dissemos. Há, contudo, dois empecilhos para o emprego exclusivo da palavra ação no sentido [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] de “ação voluntária”. O primeiro foi a confusão animista. O segundo reside no fato de que a palavra ato, quase sinônima de ação, e usada como [[lexico:t:traducao:start|tradução]] do termo escolástico “actus”, significa não só o [[lexico:m:momento:start|momento]] da atividade como também o da «realização [[lexico:a:atual:start|atual]]», em oposição a “potência”, a mera [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]]. A concepção aristotélica de Deus resulta, pois, na [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]], como «actus purus», excluindo nele toda potencialidade, mas implicando, também, o momento da «atividade suprema». Mas o ato ([[lexico:e:energeia:start|energeia]]), que se opõe à potência, não é a categoria poiein (ação). A confusão desses dois momentos culminou em fórmulas como: «O que não age não é». Essa confusão metafísica introduzia a [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]] na palavra ação. Muito usada hoje na Psicologia, que lhe impôs um sentido que, se não a identifica com “ação voluntária”, pelo menos a relaciona com a vontade, e deduz dos diferentes graus dessa relação os pontos de vista para uma [[lexico:d:divisao:start|divisão]] prática como segue: A) ações voluntárias que 1) são efetuadas pela vontade, ou 2) poderiam sê-lo (ações espontâneas) ; B) ações não voluntárias, que são efetuadas em completa independência da vontade (ações reflexas, automáticas); C) ações anti-voluntárias, que ocorrem contra a vontade a despeito de uma resolução da vontade em contrário. Uma ação moral é um [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] devido à intervenção de uma vontade, que não experimenta nenhuma determinação de fora nem da própria natureza do sujeito moral. Pelo contrário, é próprio do reino da física, que os seus processos (ação de um ácido) sejam determinados exatamente pela natureza do agente. A [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] aludida volta a importar na conhecida distinção entre “actus humani”, ações cônscias e voluntárias, “ações hominis”, ações efetuadas por um homem e determinadas, quididativamente, pela [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]], mas que são, senão inconscientes, pelo menos involuntárias. O [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do processo cognoscitivo, como «atividade mental», depende da aceitação de outros [[lexico:p:principios:start|princípios]] preliminares. A [[lexico:n:negacao:start|negação]] do [[lexico:e:elemento:start|elemento]] ativo no processo intelectivo conduz até a introduzir uma oposição entre «intelectivo» e “ativo”. Reid, p. ex.: distingue entre «[[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] intelectivas e ativas». Mas, independentemente dessa formulação extrema de princípios opostos, a humanidade, falando antes pelos poetas do que pelos filósofos, sentiu sempre que o elemento de atividade foi distribuído no [[lexico:m:mundo:start|mundo]] de maneira desigual, atribuindo-se, geralmente, à [[lexico:r:regiao:start|região]] do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] uma atividade menos intensa do que a outras manifestações da vida. Farto da [[lexico:t:teoria:start|teoria]], Fausto proclama o princípio oposto: “No [[lexico:c:comeco:start|começo]] foi a Ação”. E quando em outra parte defende a primazia do logos, da palavra, do pensamento, acha necessário lembrar, que também o logos é ativo, tratando, destarte, de justificar a contemplação (grego teoria), ora com reputação de inativa, senão de preguiçosa. Refutam essa [[lexico:i:implicacao:start|implicação]] as [[lexico:p:palavras:start|palavras]] de J. [[lexico:l:lagneau:start|Lagneau]]: “A [[lexico:c:certeza:start|certeza]] è uma região profunda, onde o pensamento somente se pode manter com esforço”. Se bem que, de um outro [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, formula Descartes o princípio: «Não é preciso mais Ação para o movimento que para o repouso». Resumimos, no seguinte, uma [[lexico:e:exposicao:start|exposição]] de Maurice [[lexico:b:blondel:start|Blondel]], idealizador de uma «filosofia da ação», na qual reencontramos também a [[lexico:p:problematica:start|problemática]] abordada. Para [[lexico:c:compreender:start|compreender]] e hierarquizar a palavra «ação», é bom usar a distinção tradicional entre poien, praxein e [[lexico:t:theorein:start|theorein]] (fazer, agir e contemplar). A ação pode consistir em modelar uma matéria exterior ao agente, em encarnar uma ideia, em fazer cooperar, por uma criação artificial, diversas potências físicas ou ideais. I) A ação pode consistir na [[lexico:f:formacao:start|formação]] do próprio agente, esculpindo seus membros e seus hábitos, dando vida à [[lexico:i:intencao:start|intenção]] moral no [[lexico:o:organismo:start|organismo]] e espiritualizando, assim, a própria vida [[lexico:a:animal:start|animal]], e, por meio desta, a vida social. II) A ação pode consistir na realização do pensamento, no que há nele de mais [[lexico:u:universal:start|universal]] e [[lexico:e:eterno:start|eterno]]: a contemplação no sentido [[lexico:e:estrito:start|estrito]], que é ação por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]]. — No primeiro sentido, ação parece opor-se a ideia; ela [[lexico:l:luta:start|luta]] para dominar uma matéria mais ou menos rebelde, mas, por fim, ela deve tirar proveito dessa luta, e enriquecer-se pela colaboração dos seus meios de expressão. No segundo sentido, ação parece opor-se a «intenção:», que periga ser atraiçoada e deteriorada, mas que, ao contrário, deve ser precisada, fecundada, completada. No [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] caso, a «ação contemplativa» parece opor-se aos procedimentos e ao «processo [[lexico:d:discursivo:start|discursivo]]:- da [[lexico:m:meditacao:start|meditação]] ou da prática; mas, na realidade, exprime a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] perfeita do ser e do conhecimento, que preparam os conflitos provisórios e subalternos de todas as potências externas, internas, superiores, finalmente reconciliados, hierarquizados. Não é justo inferir desses conflitos transitórios uma heterogeneidade radical e peremptória de pensamento e ação. A ação deve constituir a [[lexico:s:sintese:start|síntese]] da [[lexico:e:espontaneidade:start|espontaneidade]] e da [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]], da realidade e do conhecimento, da [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] moral e da [[lexico:o:ordem:start|ordem]] universal, da vida interior do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] e dos mananciais superiores donde ela se alimenta. Diferencia Blondel por este procedimento sua própria filosofia de todo “[[lexico:a:ativismo:start|ativismo]]” pragmatista, como foi defendido por [[lexico:j:james:start|James]], Schiller e [[lexico:d:dewey:start|Dewey]]. O [[lexico:p:pragmatismo:start|pragmatismo]] ativista sacrifica a verdade à [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]] prática; o ativismo de Blondel faz da verdade uma [[lexico:v:visao:start|visão]] direta do dinamismo em que consiste todo ser. Assim Blondel propugna por uma “[[lexico:l:logica:start|lógica]] da ação”, que não nega a “lógica da ideia”, mas que a compreende em seu seio como um modo inferior e subordinado de conhecimento, pois a «lógica da ideia» não pode chegar, em sua [[lexico:o:opiniao:start|opinião]], à compreensão da essencial [[lexico:i:inteligibilidade:start|inteligibilidade]] da ação ([[lexico:f:ferrater:start|Ferrater]] Mora). III) Ante a teoria das [[lexico:m:modais:start|modais]], de Suarez, compreende-se da seguinte maneira: A ação é transeunte ou imanente. É transeunte (também chamada intransitiva) a que tem seu efeito fora do agente, e imanente a que o tem no próprio agente. A ação, para Suarez, é um modo. É a razão [[lexico:f:formal:start|formal]] da [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]], da dependência [[lexico:r:real:start|real]] do efeito quanto à causa. Entre as inúmeras perguntas que ele faz sobre a ação, interessa-nos, sobretudo, [[lexico:s:saber:start|saber]] se a ação radica ou no agente ou no paciente. A ação é algo intermédio entre a causa e o efeito (aliquid medium inter illas). Não é o efeito produzido, nem a causa que produz, nem a síntese de ambos, é a dependência real entre o efeito e a causa, que radica no efeito. A causa agente pode existir sem a ação que dela dimana, pode obrar ou cessar de obrar na ação, o que permite nitidamente distinguir a causa de sua ação, e também do efeito, porque este é o término daquele, e um mesmo efeito pode ser alcançado por meio de ações diferentes. Pela ação, o efeito se constitui dependente de sua causa. A ação é, [[lexico:a:a-parte-rei:start|a parte rei]], uma dependência real, afirma Suarez, mas é uma dependência da causa eficiente; é a dependência real do término para com seu princípio agente. A dependência é dependência de quem depende; portanto é do término que provém do agente, e como é um modo não pode depender de si mesma. Por isso, a Ação não pode existir sozinha, porque não há dependência sem algo que dependa. O modo é recebido no paciente, e, neste caso, a Ação é recebida no paciente, sendo deste o modo de dependência ao agente. No tocante às ações transeuntes, tudo é claro. Não quanto às ações imanentes (as que se dão no agente). No primeiro caso, a ação é o [[lexico:f:fieri:start|fieri]]; emana do agente, mas nele não permanece. Resta [[lexico:a:agora:start|agora]] [[lexico:v:ver:start|ver]] a ação imanente para Suarez. Para muitos tomistas, não há aqui propriamente ação, pois esta induz o paciente e, nas imanentes, não há paixão (de pathos, no sentido de passus, sofrido). Mas Suarez argumenta que os atos imanentes são verdadeiras qualidades, e que se produzem por suas potências (são intensistas, diríamos). São atos imanentes, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], o ser bom, mau, sapiente, etc. Mas há, nesses atos imanentes, dependência das qualidades às potências que os produzem, alega Suarez. O término pode permanecer no sujeito, e a ação tende ao seu término. A ação imanente pode ser distinguida como ato de produzir e como [[lexico:p:produto:start|produto]]. No primeiro caso, tem razão de produção, é a ação propriamente tal; como término é a [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] produzida. A ação cognoscitiva é uma ação imanente. E, no conhecimento, engendram-se as [[lexico:s:species:start|species]] intentionales, que se formam com certa [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] com o objeto conhecido, são representações dos entes reais. Essas espécies aderem-se à [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] por meio do modo de [[lexico:i:inerencia:start|inerência]]. A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a [[lexico:m:mediacao:start|mediação]] das coisas ou da matéria, corresponde à [[lexico:c:condicao-humana:start|condição humana]] da [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]], ao fato de que homens, e não o Homem, vivem na [[lexico:t:terra:start|Terra]] e habitam o mundo. Todos os aspectos da [[lexico:c:condicao:start|condição]] humana têm alguma relação com a [[lexico:p:politica:start|política]]; mas esta pluralidade é especificamente a condição — não apenas a conditio [[lexico:s:sine-qua-non:start|sine qua non]], mas a conditio per quam — de toda vida política. Assim, o idioma dos romanos — talvez o [[lexico:p:povo:start|povo]] mais político que conhecemos — empregava como sinônimas as expressões «[[lexico:v:viver:start|viver]]» e «estar entre os homens» (inter nomines esse), ou «morrer» e «deixar de estar entre os homens» (inter homines esse desinere). Mas, em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo na [[lexico:g:genese:start|Gênese]] («macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem (adam) — a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o resultado da multiplicação. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa interferência com as leis gerais do [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]], se os homens não passassem de repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo [[lexico:m:modelo:start|modelo]], todas dotadas da mesma natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa. A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}